
Arte de: Marc Chagall
Lorenzo Ganzo GalarçaCertas vezes, nas vastas planícies da nostalgia, recorria às almofadas dos avós para construir fortalezas em cima da cama do casal. Demonstrava a frieza calculista de um jovem arquiteto. Planejava a construção minuciosamente, com direito a um fosso repleto de crocodilos para a proteção.
Desde pequeno encontro na cama o lugar mais seguro para meu corpo. Uma espécie de útero de aluguel.
Hoje estava triste, com os cílios varrendo o assoalho do quarto. Apagando fósforos antes de acender a chama. Acordei distante do dia, distante do sono, distante da minha namorada.
Disse a ela que estava chateado com o fato do final de semana estar acabando e de que iríamos nos separar. Nós dois abandonaríamos a mágica intersecção do encontro e voltaríamos para os nossos círculos de atuação.
Acredito que o encontro seja o istmo que une diferentes continentes. Minha namorada já atravessou o Atlântico para buscar o meu sorriso. No encontro, ultrapassamos a superfície da vida para emergir no imensúravel e retomar o fôlego.
Ela me disse que eu deveria relaxar, que o final de semana também pode ser início. Disse que eu me ausento do corpo por temer que a pele se renove.
Aceitei a crítica com a natureza de uma árvore e pedi desculpas por desvalorizar a soma dos segundos. Minha pressa me faz atropelar a juventude para saborear a velhice. Vivo por antecipação e não capturo o pulo dos peixes.
Ela levantou o cobertor da cama e chamou-me para debaixo dele.
- Vem pra cá, construiremos uma cabana para proteger a nossa eternidade da ameaça do tempo.
Minha namorada não só me reconforta no presente
como justifica os sonhos do meu passado.

3 comentários:
"mágica intersecção do encontro"
Lindo! Lindo! (e sem mais...)
Incrível Lorenzo!
Um texto mais incrivel que outro.
Eu gostaria de te publicar , com os devidos créditos .
Volto para receber sua autorização.
http://windmillsbyfy.wordpress.com/
Fy
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