No amor, o que menos importa para mim é a correspondência, a confirmação. Não preciso que me retribuas um "eu também" quando falo "eu te amo". Preciso apenas dos teus ouvidos.
O silêncio me gratifica mais do que a homenagem.
Devemos estar sempre prontos para receber o amor do outro. Não importando o horário ou a situação. O amor não espera o trânsito.
Havia combinado com a minha namorada uma conversa pelo telefone durante a noite. Um abraço de costas. Buscamos enganar a saudade, mas sempre acabamos acordando os gritos.
Algumas eventualidades aconteceram e acabei mudando meus planos. Na pressa ao sair de casa, fui ligar para e ela e percebi que o celular estava sem bateria.
Resolvi mandar um e-mail explicando o ocorrido.
Entenda, não existe nada mais desrespeitoso do que informar alguma coisa por e-mail. É como se a materialidade do discurso diluísse a culpa da escolha. Muito antes um pombo correio ou sinal de fumaça. As cartas ao menos são românticas.
Não mandei e-mail porque era mais prático, mandei porque fiquei envergonhado de dizer para minha namorada que não conversaria com ela por telefone.
O celular ficar sem bateria foi a desculpa que o destino me ofertou. Funciona como se fosse um ferrolho amoroso: "Ó, tu não pode ficar brava. A culpa foi do telefone."
Toda vez que tentamos desapropriar as escolhas, perdemos a capacidade de articulação da vida. Desculpar-se é como subir em uma cadeira-de-rodas.
Mais tarde, ela me respondeu o e-mail. Teve compaixão. Poderia ter guardado as palavras, datilografado a mensagem, emoldurado e pendurado na parede da sala. Minha namorada preferiu não exilar-me na solidão. Juntou-se a mim na caixa de rascunhos e me ofertou a mão.
Dizia na mensagem que seu dia havia sido terrível, que estava triste e que o que mais desejava era ouvir a minha voz. Desabafar nos ouvidos de quem mais gosta. Disse que ficou chateada mais com a minha forma do que com o conteúdo.
-"Puxa vida", disse assim.
Senti meus cabelos fazendo companhia a sola dos pés. É como se eu mesmo fosse retirando os alicerces de meu corpo. Desconstruindo minha imagem, como um artesão que deforma o barro durante o processo criativo.
Meu desejo era de descascar a pele para poder ventilar a carne. Reunir algumas ferramentas e lapidar meu caráter.
De que adianta a entrega quando não somos recebidos?
Minha namorada abandonou sua casa para viver em meu corpo. Permaneceu parada na porta aguardando a entrada que não veio. Flutuante e sem pátria.
As vezes acho que deveria afastar-me do convívio. Retirar-me de cena por um tempo. Rescrever o roteiro. Pensar melhor nas frases.
Voltar apenas quando tiver certeza de que estou de portas abertas.
O amor não vive de frestas na janela.

2 comentários:
Nem sempre conseguimos. Relação é artesanato. O produto não fica industrial, é fato.
Beijo amor
Me identifico
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