quinta-feira, 15 de abril de 2010

Celular

Lorenzo Ganzo Galarça



Minha namorada nunca perde uma ligação no celular. Toda vez que lhe telefono, tenho a certeza de escutarei sua voz. Funciona como um plantão amoroso. Ela já fica com o dedo sobre o botão verde assim que escuta a interferência no rádio chegar.

Eu, pelo contrário, nunca aprendi a desfrutar da mobilidade dos aparelhos. Deixo meu celular no balcão do quarto, como se estivesse recarregando a bateria, e saio andando avoado pela casa.

Ocupo meus bolsos apenas com guardanapos e lágrimas.

Meu toque é do tipo crescente, logo somente escuto o celular depois que o outro já criou raízes na linha. Chego atrasado, perco o trajeto.

Falar comigo tornou-se uma conquista. Dificulto os caminhos, uso sósias e esconderijos. Glorifico a conversação.

Minha namorada reclama, diz que eu preciso estar mais disponível. Eu digo ela que a dificuldade intesifica o amor, e ela torce o nariz.

Esperar na linha é a confirmação do desejo.

Digo a ela que quase nunca atendo o telefone, verdade. Mas que também sou sempre o último a dizer adeus.

Pontualidade no amor é estar sempre atrasado para a despedida.

Um comentário:

Yke Leon disse...

Muito bem escrito, bem construído e com um final marcante.
"Pontualidade no amor é estar sempre atrasado para a despedida" é daquelas frases que a gente se lembra até quando começa a esquecer.

Yke Leon,
www.revolutear.com