sábado, 19 de dezembro de 2009

Perdendo Tempo


Arte de : Jean Basquiat

Lorenzo Ganzo Galarça


Fomos nos acomodando. Reclinado a poltrona bege e bebendo as nossas cervejas. Enquanto as mulheres rompiam paradigmas, amassavam estereótipos e se distanciavam da cozinha, os homens se acostumavam com a indiferença.

Hoje em dia, somente as mulheres são misteriosas. Guardam um segredo debaixo de cada esmalte. Todo cabelo feminino é uma biblioteca.

Os homens foram sendo decorados. Vêm com um manual de funcionamento estampado na nuca. Transformamo-nos em rebanho para sermos guiados por alguma vaqueira solidária.

Os homens não tem espaço para a inovação. É como se as "Regras do bom macho" ficassem voando por sobre as nossas cabeças.

Regra número um: Jamais elogie. Quem elogia é veado.
Regra número dois: Nunca seja atencioso. Atenção é coisa de cabeleireiro.
Regra número três: Jamais demonstre prazer na cama. Macho mesmo goza e fica quieto.

Existe uma grande confusão de conceitos. Um quarto bagunçado.

O homem relaciona virilidade com falta de respeito. Lembra a imagem imponente do pai, brigando com sua esposa, na escuridão do quarto e nos holofotes da sala. Toda sala é um palco à Augusto Boal.

Os homens acham que medo e respeito são irmãos separados na maternidade. Não querem relacionamento, querem paternalismo. O troglodita é aquele que antecipa a paternidade com uma mulher.

No sexo, apenas a mulher deve gemer. O homem fica excitado não com o lábio mordido da companheira, mas sim com o seu próprio silêncio. Sua seriedade. Seu objetivo cumprido. O gemido é a casa assombrada do desejo.

Homem na cama não busca prazer, busca medo. Deseja uma mulher submissa que o trate no dia-a-dia com a mesma entrega do quarto. Não faz idéia de que o lençól é o diário do relacionamento.

Deseja chegar a casa e receber um beijo com cheiro de roupa lavada, mas a única coisa que traz da rua é a velha camisa suada cheirando a palavrão. Quantos homens voltam para casa de roupa nova? Quantos homens lembram-se de comprar lenha para a lareira?

O homem quer possuir a mulher. Empilhá-la na sua estante, junto aos carrinhos da infância. Quer mais um troféu para mostrar aos colegas do trabalho.

Parece que perdemos em algum lugar do mundo o nosso interesse. A nossa sensualidade. Ainda estou tentando retirar os meus irmãos da casa desabada, erguer algumas palafitas sobre o rio da vida e recomeçar o aprendizado.

O homem deseja apenas receber, mas ainda não aprendeu a se entregar.