quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Imaginação Míope


Arte de: Paul Klee

Galarça Lorenzo Ganzo


Sempre achei que tivesse uma ótima visão. Quando criança, a chamava de olhar de águia, aquela que enxerga a presa a quilômetros de distância e já calcula o ataque. Era o estrategista da observação. Revezava o silêncio com o meu bodoque.

Para o meu triste desespero, descobri, esses dias, que minha visão estava prejudicada. Não estou falando de um problema oftalmológico, mas da funcionalidade da visão. Um popular caso de imaginação míope.

Após fazer a barba, fui buscar a toalha de rosto mais próxima do balcão do banheiro. Não havia nenhuma. Procurei no armário e vi que todas tinham ido tomar banho. A única toalha que restara era uma de chão. Marginalizada pela hierarquia de poderes da limpeza, ficou excluída dos meus planos de higienie.

Tanto a toalha de rosto como a toalha de chão eram feitas do mesmo material, desfrutavam da mesma marca de amaciante, eram irmãs de comprimento e largura. Entretanto, o meu mundo decorado foi mais forte do que a sensibilidade.

Deixei a pele gripada porque não tive coragem para fugir dos limites. Todo nome é um limite. São as arestas das nossas vidas. Tenho medo de pessoas com o sobrenome muito grande, parece que mastigam as palavras quando se apresentam.

Nós nos transformamos em escravos dos nossos títulos. Investimos demais na nossa apresentação e não guardamos fôlego para o resto. Somos um restaurante fino que serve misto quente.

A observação é o contrário disso. É quando temos a capacidade de escolher um pássaro como nosso guardador de segredos, mesmo sabendo que ele jamais retornará. É quando enxergamos um barco e desconstruímos o horizonte, a fim de levá-lo aonde nunca esteve.

Observação é entender que a manhã acorda na boca dos peixes. Que o ventilador serve para nos servir as fatias.

Abandona teu nome. Troque o arranjo das letras.
Te conhecerás tanto que jamais serás esquecido.