sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Apetrechos


Arte de: Henri Matisse

Lorenzo Ganzo Galarça


Ganhei um relógio de aniversário.

Não é que não tenha apreciado o presente, ou mesmo sua aparência. É discreto. Pulseira preta de couro maleável, números grandes e traços cortados à espeto corrido. Compensa ao fazer cócegas de avô na ponta do braço.

O problema é que nunca havia usado relógio. Via nele um apetrecho sem utilidade. Conferir o tempo era o mesmo que desperdiçá-lo.

Quando o coloquei no pulso, o relógio cresceu como se experimentasse fermento em minhas idéias. De repente cresceu mais que minha cabeça, mais que minhas amêndoas arregaladas. Havia tomado o mundo inteiro.

Fui olhar-me no espelho para ver se o relógio combinava comigo. Já era de se esperar, mas era eu que combinava com ele. Tornei-me imediatamente um acessório desproporcional. Algo bréga. Meu corpo estava fora de moda.

Carrego, agora, um certo desespero comportado em meu pulso. Aquele nervosismo de peixe de aquário. Uma paranóia travestida de atenção.

Olho constantemente para o relógio. Suplico à imaginação que o diminua, molde-o conforme minhas curvas. Entretanto, parece que já não sou eu mais que o controlo. Que detenho o engenhoso segredo de seus furos. O rebuscado laçado de um peão urbano.

Resta esperar que o relógio se canse de mim. Desista do exibicionismo e coloque um agasalho. Até que eu não sirva mais para passar as suas horas.

Acho que não nasci para me acostumar.

Um comentário:

Luisa, disse...

já leu "instruções para dar corda a um relogio" ? do cortázar? sinto uma certa interxtualidade aí...
ficou bem bacana o texto. gostei. pretendo passar mais por aqui.