domingo, 9 de agosto de 2009

Nervosa


Arte de: John Piper

Lorenzo Ganzo Galarça

Tenho com a chuva uma estranha nostalgia.

Toda vez que as nuvens choram, inundo-me de um misto entre saudade e desconforto. Cada gota carrega um odor distinto.

A água vai lavando os pássaros em pleno vôo e começa a escorrer pelas calçadas. As folhas bóiam como se estivessem em um imenso tobogã.

A chuva é o desabafo do céu.

Como não se sensibilizar com tamanha sinceridade?

Quando criança, não entendia o porquê do fenômeno. Ficava furioso com a limitação imposta. A chuva vinha e brincava com o pátio, me deixando em casa, apenas observando a ciranda pela janela.

Ainda não conhecia a gravidade, a composição da atmosfera, os eventos climáticos. Para mim, chuva era um desaforo. Despotismo divino.

Confesso que, mesmo hoje em dia, depois das aulas de física, das explicações dos pais, das histórias em quadrinhos, a chuva continua não fazendo sentido algum.

O conhecimento não muda os fatos. Apenas proporciona um novo entendimento sobre eles.

A chuva ainda continua a tocar piano nas avenidas. Continua a atrapalhar o trânsito. Continua tirânica em certos aspectos.

Eu mudei. Hoje em dia, aceito aquilo que não faz tanto sentido. Aprendi a dar espaço para o que não gosto. A conviver em maior harmonia com a vida.

Sinto-me casado com o céu. De aliança e nomes no cartório. A chuva é como uma mania do matrimonio. Um roer de unhas.

Chuva é um nervosismo.

Abraço o desespero. Ponho sua umidade sobre meu ombro e afino as cordas do instrumento.

Aprendi a ninar as tempestades em meus pensamentos.

2 comentários:

Cínthya Verri disse...

:) que lindo que és!

Wania disse...

Lorenzo escreves com um profundidade e uma sabedoria imensa!
Fico te lendo e imaginando as tuas palavras...lindas palavras!

Parabéns!
Bjão!