terça-feira, 25 de agosto de 2009

Intimidade Falada

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Arte de: Klimt

Lorenzo Ganzo Galarça


As dificuldades não são bagagens vindas do nascimento. Construímos nossas vidas a cada momento, a cada esquina. Toda rua é mãe de um segredo.

Os pássaros regurgitam suas habilidades com as palavras. Podem permanecer durante horas, sobre o fio de luz, jogando conversa fora. Não existe vergonha para aqueles que se vestem com pouco mais que um punhado de penas.

Já experimentei trocar o vestuário. Usar roupas mais leves. Camisas e bermudas transmitem um ar de descontração.

Descobri que o peso das roupas não está no tecido. O desconforto acontece muito antes dentro da pele, do que fora dela. Aliás, poucas coisas mudam-se pelo exterior.

Não me envergonho da minha falta de competência. De trocar as palavras. Escutar o soluço dos dentes.

Não me decorei a ponto de cumprimentar sempre da mesma forma. Acenar com suavidade. Sorrir com o canto mais bonito da boca.

Invento-me sempre para não correr o risco de esquecer o repertório.

Furto-me de qualquer conveniência. Tropeço na língua, e já saio dizendo:
-Nossa, já fiquei nervoso de falar contigo.

Ser verdadeiro dilui qualquer gafe, enaltece a companhia, honra o encontro. Faz do tropeço, cambalhota.

Reconheço: Não existe mais espaço em mim, para alguém diferente do que sou.

Posso passar a vida ao seu lado, construir nossa casa e criar nossos filhos. Não tenho dificuldade para dizer o quanto Amo. Não temo nenhum relacionamento profundo. Criar raízes em teus cabelos.

O que temo é o não-relacionamento. A falta de verdade. Os momentos desperdiçados. Abrigo-me distante das calmarias; abro portas e janelas para as tempestades.

A intimidade inunda-me com seu volume. Me afogo em teu sorriso e mergulho no suor do corpo.

Desaprendi a conviver, pois acostumei-me a te habitar.

Cumprimentar-te, um esforço; declarar-me, um ato falho.

domingo, 9 de agosto de 2009

Nervosa


Arte de: John Piper

Lorenzo Ganzo Galarça

Tenho com a chuva uma estranha nostalgia.

Toda vez que as nuvens choram, inundo-me de um misto entre saudade e desconforto. Cada gota carrega um odor distinto.

A água vai lavando os pássaros em pleno vôo e começa a escorrer pelas calçadas. As folhas bóiam como se estivessem em um imenso tobogã.

A chuva é o desabafo do céu.

Como não se sensibilizar com tamanha sinceridade?

Quando criança, não entendia o porquê do fenômeno. Ficava furioso com a limitação imposta. A chuva vinha e brincava com o pátio, me deixando em casa, apenas observando a ciranda pela janela.

Ainda não conhecia a gravidade, a composição da atmosfera, os eventos climáticos. Para mim, chuva era um desaforo. Despotismo divino.

Confesso que, mesmo hoje em dia, depois das aulas de física, das explicações dos pais, das histórias em quadrinhos, a chuva continua não fazendo sentido algum.

O conhecimento não muda os fatos. Apenas proporciona um novo entendimento sobre eles.

A chuva ainda continua a tocar piano nas avenidas. Continua a atrapalhar o trânsito. Continua tirânica em certos aspectos.

Eu mudei. Hoje em dia, aceito aquilo que não faz tanto sentido. Aprendi a dar espaço para o que não gosto. A conviver em maior harmonia com a vida.

Sinto-me casado com o céu. De aliança e nomes no cartório. A chuva é como uma mania do matrimonio. Um roer de unhas.

Chuva é um nervosismo.

Abraço o desespero. Ponho sua umidade sobre meu ombro e afino as cordas do instrumento.

Aprendi a ninar as tempestades em meus pensamentos.