segunda-feira, 13 de julho de 2009

Segredos Compartilhados


Arte de:Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça


Tanto os homens como as mulheres preservam certos hábitos restritos à espécie. Pequenos segredos compartilhados ao mesmo gênero.

Outro dia, encontrei uma escuta cor-de-rosa escondida de baixo da pia do banheiro dos homens. De fato, todos querem desvendar os segredos alheios.

Em casa, na suíte do quarto, os homens reclamam dos cabelos entupindo o ralo; as mulheres, da grande boca aberta do vaso. Dentro da intimidade do matrimônio, é bastante aceitável essa troca de informações secretas. É a concretização da confiança. Uma traição aceita pelo grupo.

Bem, se compartilhar segredos é intimidade, então porque os banheiros mistos não são os grandes casamenteiros do século XXI ?

É simples, banheiros mistos são câmaras de higienização. É o único lugar do mundo aonde você perde a cidadania, o sexo, a liberdade. Você deve deixar a sexualidade do lado de fora antes de entrar. O banheiro misto tornou-se uma vala comum.

De fato, é uma pena. O banheiro misto poderia ter sido o buraco da fechadura dos sexos. Foi trocado por mais uma simples fachada de direitos iguais.

Ele tornou-se, de fato, golpe de misericórdia das singularidades. As pessoas envergonham-se de suas particularidades dentro de tanta indiferença. É como se houvesse alguém fazendo pouco caso das nossas histórias.

A beleza da individualidade cedeu lugar à violência da produção em série.

Portanto, você, que sabe a marca do absorvente de sua namorada, você, que reclama da tampa do vaso aberta, você, que fica louco com alguns fios de cabelo no ralo do chuveiro.

Entenda: Apenas não respeitamos aquilo que ainda não aprendemos a amar.

Assim, reconhecerá que o que mais ama em sua companheira, ou em seu companheiro, é poder fazer parte de todos os seus segredos.

O Amor empresta a chave da casa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mitos não devem ser idolatrados


[John Lennon, mitificado para sempre
por Wandy Warhol.
]

Lorenzo Ganzo Galarça


Bastou, o ilustre rei da música pop, bater pela última vez os sapatos para que seus discos renascessem da empoeirada estante de LP's da sala.

Michael Jackson se juntou ao seleto grupo de artistas mitificados. Empalhados. Logo estarão esculpindo sua estátua, em cera, no museu de arte moderna de Manhattan.

A morte traz a segurança. O mundo tem medo de apaixonar-se cegamente por pessoas atuantes. Todos sabem que um astro de rock é também um ser-humano. Todos reconhecem a capacidade do erro. Do fracasso. Da difamação.

Morto não trai expectativas.

Agradeço todos os dias, ao ler o jornal, por não me deparar com uma foto de Bob Dylan dançando nu em um iate no Caribe. Seria arrasador. Quase um pedido de separação da imaginação. Da fantasia. Do meu mundo de heróis.

É assim também nos relacionamentos. Temos medo da doação. Da entrega. Dos presentes. Os homens, em geral, esquecem de celebrar as suas companheiras pelo medo de perdê-las.

Com o fim de um relacionamento, o homem sente-se livre para elogiar a ex-namorada. Ou odiá-la, pois a recíproca também é verdadeira.

Não realizamos o ódio durante o relacionamento, pois reconhecemos que amanhã poderemos amar.

Devemos entender que os relacionamentos não são construídos de certezas. Nem de constâncias. Assim como a vida, o Amor abrange apenas o acaso.

Devemo-nos permitir a ferida. O sangramento. O excesso de pré-ocupação no Amor gera empecilhos para os carinhos. O casal deve permitir-se a desilusão.

Somente o que é concreto interessa.

Mitos não devem ser idolatrados.