sábado, 16 de maio de 2009

Currículo


Eles sem mim, eu com eles.

Não importam os meses, nem os anos em que se prepara para uma despedida. O script final sempre sofre alterações no decorrer do espectáculo.

A separação sempre será repentina. Surpreenderá toda e qualquer previsão. Uma separação sempre foge das possibilidades. É um dado redondo, com as faces viradas para si.

Devolvi as alianças aos meus amigos. Os uniformes do colégio, nossas fotos juntos, seus fios de cabelo. Meus boletins antigos são álbuns de fotografia. Jamais me esquecerei.

Abandonei o colégio no qual me criei para escrever meu próprio diploma. Foram oito anos inteiros de manhãs no Morro Orfanotrófio . Colégio João XXIII... Acho que fui abençoado durante a minha vida escolar. Com certeza, não só pelos professores, mas pelos colegas que tive.

Na primeira série, éramos desconhecidos. Estranhos em processo de confraternização. As amizades dos colégios são de sobrevivência, instintivas.

Fomos crescendo e superando os problemas juntos. Como cavalos selvagens, fomos subindo os degraus da escolaridade. Confesso: Tropeçando muitas vezes!

Sou o que sou porque fui meus amigos. E sei que eles também fizeram o mesmo. Habitei os corpos dos meus colegas profundamente. Construí casas e abrigos. Minha moradia debaixo de seus braços.

Escutava suas frustrações, sentia as suas feridas e dançava suas alegrias. Poderia passar horas escutando o que tinham para me dizer. Armava barracas perto de seus lábios e criava limo em suas bocas.

Nos conhecíamos tanto que nos separamos. Os relacionamentos acabam junto com os segredos. A curiosidade abriu espaço para a serenidade. A paixão, para o Amor.

Somente pude me separar dos meus amigos por confiar nas nossas amizades. A coragem é a afirmação da plenitude.

E mesmo com toda essa paz, essa tranquilidade no final. A consequência é repentina. Ainda estou fazendo o caminho mais demorado para o cartório.

Uma decisão, por mais convicta que seja, é sempre inusitada.

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