terça-feira, 26 de maio de 2009

Protesto Infantil


Arte de: Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça


Corro os olhos pelos tristes azulejos do colégio. Aceito o desafio contra o cansaço: Atravesso corredores, subo as escadas em espiral, esquivo-me das mochilas de rodinhas. Enfrento cada gesto mentiroso...

Saídas de colégios são seminários sobre a mentira. Os pais retiram o suor da testa, ajeitam o corpo das gravatas, alisam as sobrancelhas; As mães arrumam o decote dos vestidos, refazem o caminho dos penteados, colorem suas bocas com batom para diluir a palidez da verdade.

Os responsáveis se engomam por alguns minutos para mostrarem que são bons educadores, que são atentos aos detalhes, à gola da camisa dos filhos, ao laço no cadarço dos tênis. Não é a falta de dedicação que me causa indignação, mas sim a falta de realidade.

Nenhum pai nasce com a obrigação de ser atento. A falta de preparo não é uma irresponsabilidade. Ninguém deve culpar-se ao se comparar com outro cuidador. A negação de sua natureza é muito mais vergonhosa do que um cabelo despenteado, ou uma bragueta aberta.

Criou-se uma idealização paterna e materna. O exemplo perfeito de adulto para os mais jovens. As crianças perderam a chance de terem pais diferenciados, pois todos procuram o mesmo perfeccionismo. O imperfeito foi esquecido junto com as jaquetas de couro brega. A diferenciação perdeu-se no caminho da perfeição.

Que criança que se orgulha de ter um pai que usa o terno abotoado até o fim? Que criança que enche a boca de felicidade ao ver o penteado uniforme da sua mãe? Que criança faz brilhar o olho por ver seus pais reprimindo suas naturezas?

Crianças são bichos! Sentem o cheiro da mentira, assim como os cachorros sentem o cheiro do medo! Acordem, idiotas! Seus filhos estão crescendo com o olhar cada vez mais distante!

O mundo não está entregue à geração futura! O depois se faz agora! Bebam doses extras de virtude e percepção no café, junto ao jornal.

Talvez ainda reste alguma verdade na sua paternidade.

sábado, 16 de maio de 2009

Currículo


Eles sem mim, eu com eles.

Não importam os meses, nem os anos em que se prepara para uma despedida. O script final sempre sofre alterações no decorrer do espectáculo.

A separação sempre será repentina. Surpreenderá toda e qualquer previsão. Uma separação sempre foge das possibilidades. É um dado redondo, com as faces viradas para si.

Devolvi as alianças aos meus amigos. Os uniformes do colégio, nossas fotos juntos, seus fios de cabelo. Meus boletins antigos são álbuns de fotografia. Jamais me esquecerei.

Abandonei o colégio no qual me criei para escrever meu próprio diploma. Foram oito anos inteiros de manhãs no Morro Orfanotrófio . Colégio João XXIII... Acho que fui abençoado durante a minha vida escolar. Com certeza, não só pelos professores, mas pelos colegas que tive.

Na primeira série, éramos desconhecidos. Estranhos em processo de confraternização. As amizades dos colégios são de sobrevivência, instintivas.

Fomos crescendo e superando os problemas juntos. Como cavalos selvagens, fomos subindo os degraus da escolaridade. Confesso: Tropeçando muitas vezes!

Sou o que sou porque fui meus amigos. E sei que eles também fizeram o mesmo. Habitei os corpos dos meus colegas profundamente. Construí casas e abrigos. Minha moradia debaixo de seus braços.

Escutava suas frustrações, sentia as suas feridas e dançava suas alegrias. Poderia passar horas escutando o que tinham para me dizer. Armava barracas perto de seus lábios e criava limo em suas bocas.

Nos conhecíamos tanto que nos separamos. Os relacionamentos acabam junto com os segredos. A curiosidade abriu espaço para a serenidade. A paixão, para o Amor.

Somente pude me separar dos meus amigos por confiar nas nossas amizades. A coragem é a afirmação da plenitude.

E mesmo com toda essa paz, essa tranquilidade no final. A consequência é repentina. Ainda estou fazendo o caminho mais demorado para o cartório.

Uma decisão, por mais convicta que seja, é sempre inusitada.