domingo, 15 de março de 2009

Porto Seguro.


Arte de: Edgar Degas

Lorenzo Ganzo Galarça

Ela não puxava o freio de mão.

Talvez por medo de parar em algum lugar. Estacionar na vida. Nômade como o pai, viajava de porto em porto, aceitando as tempestades. Reconhecendo que não poderia ficar. Abandonava para não ser abandonada.

Começou na escola, quando não tinha força para suportar a pressão dos amigos. Aguentar na pele as brincadeiras maldosas. Começou, quando ficar sentada não era mais confortável. Estava sempre em movimento. Uma progressão que desrespeitava os intervalos. Típica revolucionária.

Menina de sapatilhas e de peito erguido. Aprumada como uma vela náutica. Panejava, às vezes, mas logo retomava o rumo. Era, também, um pouco insegura. Sua capacidade a assustava. Seu corpo se compromissava sem a permissão da alma. Pobrezinha, seu caráter era mais forte que as vontades.

Talvez por isso, foi assim, solitária, em silêncio. Tinha medo da própria boca. Sua língua era como um animal feroz, incrivelmente forte e violento. Restava domesticá-lo e demonstrar os valores.

Mais tarde, depois da passagem dos anos, do nascimento dos filhos e independência financeira, pôde acalmar-se um pouco. Mas também não muito para não perder o ritmo. Disciplinada pelo acaso, regrada por si própria. Um dever nunca foi dolorido.

Hoje, está mais serena, com tempo para apreciar o horizonte que batalhou a vida inteira para conquistar. Desfruta dos tijolos da casa, do chão que pisa, do ar que respira, desfruta até dos seus problemas.

Já arrisca escolher as cores dos azulejos, o tecido das cortinas. Está, pela primeira vez, se sedentarizando, pois nunca havia se sentido merecedora.

Hoje, a vi tremendo as unhas vermelhas sobre o freio do carro. Quase com vergonha do ato. Uma mudança súbita de apetite. A alavanca do destino. Aquele instante mudaria sua vida. Enfim, puxou o freio de mão.

Talvez esteja mais segura do seu lugar, do valor que representa, da importância do seu serenar. A menina de sapatilhas, talvez, esteja, finalmente, se permitindo errar os caminhos, pois reconhece a estrada quando a vê.

2 comentários:

Cínthya Verri disse...

aaaaaaaaaaah
que maravilhoso!!!
MARAVILHOSO

mari_mays disse...

Me pediste pra comentar aqui, mas acho que meus aplausos não se farão ouvir.