quarta-feira, 25 de março de 2009

Gabriel e sua dor.


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Segurava com força seu próprio pulso.

Talvez, estivesse com medo de que caísse se o soltasse. Envolvia, fortemente, a mão gordinha com seus dedos. Agarrava-se a ela como se fosse a única parte de seu corpo. Era, naquele momento. Inclusive, não havia mais ninguém com ele ali. Somente ele e sua mão esquerda. Sua mão e o sangue que dela escorria.

O cachorro o mordera com frieza. Dada mais existia, além dele mesmo e de sua dor. As vozes dos pais não faziam sentido. Não poderiam fazer. Somente ele sentia aquilo. Estava convicto disso. Desrespeitava os ouvidos tapando-os para não escutar as bobagens dos familiares. Qualquer contato seria inútil, pois ele já não estava mais ali, conosco.

Maravilhei-me com a força de seu olhar. Sua atenção para o acontecimento. Dedicação com os sentimentos. Apertava a mão, prendendo a circulação do sangue. Aprisionou a dor da ferida na ponta dos dedos. Fez a palma inchar. Cicatrizou na pele o que estava para ir embora. Eternizou o momento para sempre em sua consciência.

Fez isso por segurança própria, autodefesa. Fez isso para lembrar-se, quando roer as unhas, da mordida do cachorro. Seria perigoso que tivesse esquecido o fato. O trauma protege, mas não cura. Imortaliza e não deixa renascer. Nenhuma mordida daquele momento em diante seria original. Todas se espelhariam no ataque a infância. O presente criaria atalhos para o passado.

E se ele não tivesse prestado atenção? E se tivesse deixado o sangue coagular? O que seria dele e daquele encontro com o cachorro de sua avó, se ele não o houvesse respeitado, escutado o que tinha para dizer?

Talvez, Gabriel, deixaria de ser Gabriel. Sua mão ficaria para sempre, entre os caninos do cachorro. Perderia um pedaço de seu corpo. Seria um leproso até que alguém lhe mostrasse uma foto do acontecimento. De preferência, uma que mostrasse o sangue pingando e a raiva escorrendo pelo seu olhar. Mas não haviam máquinas fotográficas naquele instante. Ninguém se preocupou em registrar o episódio. Em anotar em um diário da família. Todos confiaram a tarefa a Gabriel. Entregaram a ele a possibilidade de ser esquecido por si próprio.

Graças a Deus, não o fez.

Não, ele agarrou sua mão com força! E até hoje a mantém com uma cordinha presa na cintura das bermudas.

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