terça-feira, 10 de março de 2009

Banheiro Masculino.


Arte de: Portinari
Lorenzo Ganzo Galarça


Lembrou-me os egípcios carregando toneladas e toneladas de pedras. Um operário salgando o pão com o suor do rosto. O trabalho escravo. O suor do corpo banhava os braços negros, como a noite. Banhos de esforço. Lágrimas do corpo.

Esfregar o chão, também não é fácil. Deixar ilustre o que os outros tratam como lixo. Ainda hão de olhar o chão como se enxerga o céu. Acredito que as pessoas conseguirão pisar nas nuvens. Ter respeito pelo que da sustentação. Amor ao ombro quente da terra.

Conheci uma pessoa que não se cansa de acreditar nas outras. Guarda o brilho do olho como promessa, aceno de mão como entrega. Limpava os vidros do banheiro como se limpasse os próprios dentes. Passava fio-dental nos azulejos, cotonete nas maçanetas.

Esse cara, não conseguia esperar até o final de semana para dançar nos bailes e nas rodas de samba. Trazia swing para dentro dos corredores, pandeiros para dentro de sua boca, euforia para a ponta dos dedos.

Sapateava com a vassoura, como se fosse sua namorada. Deslizava cuidadosamente os dedos pelo cabo. Estava conquistando-a, conquistando o seu trabalho. Dançava para continuar vivo. Aquecer-se da baixa temperatura dos olhares.

Não parou de cantar, um só minuto, desde que entrei no banheiro para mijar. Incrível! Sustentava uma nota por muito mais tempo do que Pavarotti jamais sonhou. Não só me arrancou a pressa para não perder o filme, que passava no cinema, como me fez sentar na privada e assistir de camarote ao seu show.

Transformou o banheiro em seu palco. Seu trabalho, de faxineiro, em sua alegria. Cantou e gritou como os meninos jogam bola antes de descobrirem que são craques, que seus dribles valem fortunas e que seus sambinhas comovem países inteiros.

Porto Alegre é a única cidade, de que tenho notícia, a cobrar couvert artístico para se entrar no banheiro. Qualquer dia desses vão demolir alguns boxes para encaixarem um piano.

Parem de fazer doações ao Multipalco. O segredo, agora, é investir em banheiros masculinos.

Um comentário:

e.guedes disse...

lorenzo dear
incrivel, incrível! humanidade! love the story, beijo