quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A infância no céu da boca.


Arte de: Portinari
Lorenzo Ganzo Galarça


Duas semanas de mar e praia em terras Catarinenses me deixaram com saudade de Porto Alegre. Foram duas semanas de isolamento completo. Longe das notícias, longe do Gauchão, e graças a Deus, longe da Copa do Brasil.

Nessa quinta-feira, a saudade do colorado me fez agarrar com força a minha camisa vermelha, separar os trocados para o ônibus e correr contra o relógio para chegar a tempo no Gigante.

Subi correndo a rampa. O coração na palma da mão e os gritos guardados dentro da boca. Quase pulei a roleta, na hora de entrar. Minha criança tomou conta de meu corpo. Estava indo mostrar meu dente de leite aos jogadores.

Depois de estar bem acomodado, com meu copão de coca-cola, empurrei o time para frente, ou pelo menos tentei. O colorado parecia tímido frente ao time do Novo Hamburgo. Pouco chegou ao ataque, e quando chegou desperdiçou. Foi um desrespeito com o adversário.

O time estava de férias. Os jogadores não haviam voltado dos bailes de carnaval. Taison gastou todo o seu samba no final de semana. Sobrou pouco para a bola.

A calmaria do estádio fez com que a minha euforia ficasse pequena até o fim do primeiro tempo. Sem um gol para que o corpo se ocupasse, a fome começou a tomar lugar na ordem de importância fisiológica.

Comprei um salgadinho Elma Chips, daqueles que enganam o estômago, logo no início do segundo tempo. Depois de quase 15 minutos mastigando aquele isopor borrachento, tive uma incrível surpresa, que me fincou o peito com força.

E não foi o oportunismo do Nilmar em uma bola escorada pelo Klébler dentro da pequena área do Novo Hamburgo que me fez repassar grande parte da minha infância.

Com o colorado indo para frente com velocidade, não tive tempo de olhar para dentro do saco de salgadinho e escolher o menos gorduroso. Enfiei na boca a primeira coisa que as mãos encontraram. Foi o brinde. Uma legitima surpresa!

Quando pequeno, discursava com a mãe, argumentando o porque ela deveria me comprar salgadinhos no armazém ao lado de casa. Inventava teorias malucas sobre alimentação e saúde. Passava a tarde inteira bolando um plano para conseguir enganá-la. Na volta do colégio, eu ficava passando a limpo um pedaço de papel com o discurso.

Querida, ela fingia que acreditava nas minhas teorias. Estimulava minha criatividade. Questionava as minhas téses. Treinou-me para os diálogos. Me ensinou a como temer a boca e a como respeitar as palavras. Dizia que a palavra é a arma mais perigosa contra alguém e contra si próprio. Uma faca de dois gumes.

Fazia de tudo para conseguir o salgadinho, mas o que eu realmente gostava era da surpresa. Às vezes até abria o pacote por baixo para pega-la mais rapidamente. Antecipava o prêmio. Não aguentava a ansiedade de ficar revirando a comida com os dedos. A surpresa acabou tornando-se usual. Malditos fabricantes! Nunca deram um vexame.

O que para mim há 8 anos atrás era a conquista de uma luta, recompensa por acreditar no sonho, esperança no fundo do pacote; hoje, foi somente um troço que pus na boca. Senti o gosto do passado. Levei minha infância ao céu da boca

Domingo tem Grenal...

Honrarei melhor aquele que já fui.

Um comentário:

giana disse...

Muito legal este teu texto!! Adorei lê-lo. Simples e escrita de um modo que me fez voltar à infância, também... Quando pequena eu ia aos jogos, do Inter, é claro, só para não ficar em casa, pois meu pai e meu irmão, colorados fanáticos, não perdiam um jogo. Eu passeava muito em meio àquelas cadeiras vermelhas e qualquer coisa que eu queria, era prontamente atendida por meu pai, que colocava a mão no bolso e me alcançava o dinheiro sem sequer tirar os olhos do campo...divertida aquela época!! Esta tu, com certeza, não pegaste, mas era o futebol do Figueroa, Falcão,... Abraço!!