quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Auto (nomia).


Arte de: Modigliani

Lorenzo Ganzo Galarça
Alicia foi dormir com os primos.


Foi-se com os cachos, e na pressa, esqueceu de se despedir. Apanhou a mochila com os remédios e a escova de dente, e raptou-se para longe.

Passar, hoje, pelo seu quarto bagunçado e não encontrar sequer um cílio perdido foi dolorido. Sua infância esparramada pelo chão em forma de gibis e almofadas cor-de-rosa.

Chorei sua ausência, em coro, com os lençóis e travesseiros.

Ela não foi cuidadosa. Não se despediu das bonecas como quem reconhece e respeita a incerteza do acaso, a subjetividade dos tempos.

Não, o barulho do portão não foi o suficiente para que voltasse atrás e beijasse o assoalho carinhosamente.

Sempre tive a chance de redimir meus pecados com Alicia, antes de qualquer separação. Sempre tive seus ouvidos atentos às minhas declarações de Amor.

Minha irmã rejeitou a despedida como uma criança que pula o buffet de saladas, num restaurante.

Sinto com Alicia a serenidade da morte. Não tenho nada a dizê-la, que já não esteja perene em sua alma.

Minha irmã me tornou presente na ausência.

4 comentários:

Cínthya Verri disse...

encontrar a falta
que linda coragem.
beijo, querido.

Denise disse...

Meu amor
A vida de cada um é povoada de ausências. Cabe ao sábio transformá-las em presenças-de-ausências. Fico emocionada de te perceber tão sábio, assim... tão jovem. Mas sei que isso só mostra que, quando se está disposto a viver, vive-se a infinitude a cada momento.E nossa vida transforma-se em eternidade, até a morte chegar. Te amo!!!!!
Denise Aerts

Tiger IV disse...

Meu querido filho...
Lindas as tuas prosas poéticas... lindo o teu amor pela tua irmã...
O conflito eterno entre ódio e amor... assim como entre ignorância e sapiência... ausência e presença...
conhecemos bem... o que não entendemos é quando eles se cruzam...
Beijo com amor
Airton Galarça

Mari disse...

Que lindo!

"Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?" Marcel Proust

Beijos.