sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Escoamento


Arte de: Paul Klee

Para Fabrício Carpinejar, que tanto me inunda por deixar escorrer aquilo que não consegue guardar entre os dedos.

Lorenzo Ganzo Galarça

Fui guri de sinaleira.

Fui malabarista de butiás, no quintal dos avós. Tinha vergonha de me apresentar em público. Recorria aos espelhos d'agua como platéia. Tinha medo de que me arrancassem a arte. Guardei-a para mim, em silêncio.

Agora, sei que o que é meu ninguém me tira. Tive de esperar o tempo, para que o tempo, agora, me espere. O silêncio feito na infância são os gritos de agora. Antes, não possuía ouvidos para minha boca. Me comunicava por sinais com a grama, e com as raízes que se espreguiçavam para fora da terra.

Me espreguiço para ver até onde meus braços vão. As unhas crescem para fora do corpo. Querem a sua autonomia. As unhas pedem independência das mãos. De que serviriam as extremidades, senão para estremecer a alma.

Se conquista pelos dedos, pelo toque, pelo sentimento. O ser humano é um prato quente, que se come pelas bordas. A paixão queima o céu da boca, arde forte na saliva.

Aprendi a mostrar meus malabarismos. Não tenho medo de ser atingido por quem trafega pelas ruas.

Eu pego carona.

Saí do meio-fio.

9 comentários:

Mari disse...

"O ser humano é um prato quente, que se come pelas bordas."

Lindo!

Beijos,

Anônimo disse...

Eu só não entendi o porquê de você copiar completamente o estilo de escrita do Fabrício...
Crie seu próprio estilo, ande com suas próprias pernas, em suma, seja original.
Andréia

Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Caro Lorenzo. Achei interessante seu blog. Principalmente seus textos. Escrevo mais ou menos desde os quatorze anos e recém ano passado (mês de novembro), inventei de fazer um blog. O que não quer dizer, claro, que já não publiquei em outros lugares. Mas isso não vem ao caso. Sem mais mas com muito, parabenizo você pelo seu estilo, apesar de notar ressonâncias claras de vários autores (principalmente do Fabro) nos seus textos. Entretanto, o Iberê é o Iberê porque passou anos na Europa fazendo reproduções dos grandes mestres. Logo, creio que você está no caminho certo. Se quiseres dar uma olhada no meu canto internáutico, o endereço é http://insufilme.blogspot.com/. No mais, prossiga escrevendo que talvez ainda possamos tomar uma cerveja juntos pra achar furos nas prosopopéias do Nietzsche. Um abraço, Eduardo.

Palavras de um mundo incerto disse...

Lorenzo, o li no blog do Fabrício. Ainda bem que ele modificou e colocou o link de teu blog junto ao nome.

Amigo, belo texto. O texto fez lembrar das escritas do Fabro. Mas o estilo teu é único.

A Andréia generalizou. Tu só apenas devolveu em ótimas palavras tuas, o que tu sentia.

Moro aqui em Poa(Partenon).

Abraços vizinho!!!

Marcos Seiter

william galdino disse...

Fala Lorenzo, cheguei até o seu blog através de um amigo que me disse pra dar uma conferida nos teus escritos.
És um guri mas já tens uma prosa que surpreende, cheia de sutilezas e carregada de um lirismo bem-vindo.
Começas bem rapaz.
E è isso deixar o meio-fio e partir pro meio da rua pras muitas possibilidades e pro que há de vir.
abraço e até.

Noubar Sarkissian Junior disse...

Também o encontrei pelo blog do fabrício, e não concordo com a Andréia.

Seu estilo realmente lembra o do Fabro,mas é seu. É original, e lembrar o do Fabro é um ponto a mais pra ti. É ratificar seu talento.

"O rio fica lá
a água é que correu..."

Parabéns!

Anônimo disse...

Ei, Lorenzo. Obrigado pela homenagem.
Eu nem sabia que tinha estilo.
Continue correndo com as mãos.
Até ficar distante de si.
Estilo é uma ausência!
beijo
Fabro Carpinejar

Lara Cordeiro disse...

Ahahah, os comentários são sempre ótimos!
Sou admiradora de Fabricio e agora sou sua. Ora, tuas palavras lembram as dele como lembro as orquídeas só por achá-las lindas. Mas ambos são belíssimos, inegavelmente. Gostei dos poemas também. Parabéns, é sempre gostoso ver um talento antigo num artista jovem.
Aliás, de fato: "O ser humano é um prato quente, que se come pelas bordas."... Citarei, invariavelmente.
Obrigada por transbordar.

Tiger IV disse...

Meu querido filho...
Adorei tua prosa poética, mas especialmente a coleção de elogios...
Parabéns... sempre me surpreendes... maravilhosamente me surprendes...
Obrigado por seres assim...
Beijo com amor...
Airton Galarça