sábado, 24 de janeiro de 2009

Sais e Minerais


Arte de Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça

-Ela está morrendo.

Foi o que ele me disse, sem poupar as rugas da face de seu sofrimento.

Algumas lágrimas ameaçaram chorar, assim como as folhas, que aos poucos iam caindo dos galhos secos da árvore da minha infância.

Não tenho dúvidas de que ela está morrendo, avô. Minha casa da árvore, a qual nunca ficou mais do que meio metro acima do solo, foi embora para outro quintal. A vida daquele Salgueiro estava nos os churrascos em família, nos domingos, os gritos das primas, as várias tentativas de acampamento e os castelos de tijolos feitos pelos netos.

A família cresceu, e esqueceu de regar os frutos.

A árvore da minha infância, a qual tão generosa foi com as tantas gerações de pássaros e insetos, agora recolhe seus braços para poder, enfim descansar tranquila. Resolveu recolher-se a semente.

Aos seis anos, tirei uma foto com o velho debaixo daquela árvore, depois; aos doze. Precisamos de uma nova. Sei que estarás, novamente, com o bigode branco, a careca limpa, as mãos na cintura e de pés descalços. Para mim, ao menos, manténs a simetria de um construção tua.

Sem dúvidas, és o teu melhor projeto.

Usaste a árvore como desculpa para não atrasar o almoço. Tu sabias que eu entenderia. Afinal, somos irmãos de criação.

Tua lucidez me espanta.

Tens os olhos abertos de mais para poder sonhar.

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