sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Escoamento


Arte de: Paul Klee

Para Fabrício Carpinejar, que tanto me inunda por deixar escorrer aquilo que não consegue guardar entre os dedos.

Lorenzo Ganzo Galarça

Fui guri de sinaleira.

Fui malabarista de butiás, no quintal dos avós. Tinha vergonha de me apresentar em público. Recorria aos espelhos d'agua como platéia. Tinha medo de que me arrancassem a arte. Guardei-a para mim, em silêncio.

Agora, sei que o que é meu ninguém me tira. Tive de esperar o tempo, para que o tempo, agora, me espere. O silêncio feito na infância são os gritos de agora. Antes, não possuía ouvidos para minha boca. Me comunicava por sinais com a grama, e com as raízes que se espreguiçavam para fora da terra.

Me espreguiço para ver até onde meus braços vão. As unhas crescem para fora do corpo. Querem a sua autonomia. As unhas pedem independência das mãos. De que serviriam as extremidades, senão para estremecer a alma.

Se conquista pelos dedos, pelo toque, pelo sentimento. O ser humano é um prato quente, que se come pelas bordas. A paixão queima o céu da boca, arde forte na saliva.

Aprendi a mostrar meus malabarismos. Não tenho medo de ser atingido por quem trafega pelas ruas.

Eu pego carona.

Saí do meio-fio.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Sais e Minerais


Arte de Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça

-Ela está morrendo.

Foi o que ele me disse, sem poupar as rugas da face de seu sofrimento.

Algumas lágrimas ameaçaram chorar, assim como as folhas, que aos poucos iam caindo dos galhos secos da árvore da minha infância.

Não tenho dúvidas de que ela está morrendo, avô. Minha casa da árvore, a qual nunca ficou mais do que meio metro acima do solo, foi embora para outro quintal. A vida daquele Salgueiro estava nos os churrascos em família, nos domingos, os gritos das primas, as várias tentativas de acampamento e os castelos de tijolos feitos pelos netos.

A família cresceu, e esqueceu de regar os frutos.

A árvore da minha infância, a qual tão generosa foi com as tantas gerações de pássaros e insetos, agora recolhe seus braços para poder, enfim descansar tranquila. Resolveu recolher-se a semente.

Aos seis anos, tirei uma foto com o velho debaixo daquela árvore, depois; aos doze. Precisamos de uma nova. Sei que estarás, novamente, com o bigode branco, a careca limpa, as mãos na cintura e de pés descalços. Para mim, ao menos, manténs a simetria de um construção tua.

Sem dúvidas, és o teu melhor projeto.

Usaste a árvore como desculpa para não atrasar o almoço. Tu sabias que eu entenderia. Afinal, somos irmãos de criação.

Tua lucidez me espanta.

Tens os olhos abertos de mais para poder sonhar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Esqueçer é lembrar de viver


Arte de: Paul Klee

Lorenzo Ganzo Galarça

Faço coleção de copos.

Minha sede não sacia com um só copo d'agua sobre minha escrivaninha. Preciso de vários. Todos da casa, se possível.

Os vários copos lembram-me da minha quantidade de líquido, no corpo. Se estou hidratado, ou não.

Preciso que a vida limpe as engrenagens do meu funcionamento.

Eu duvido de mim. Não me conheço a ponto de estipular certezas, em meu corpo. Duvidar é acreditar no êxito; ter certeza, é não reconhecer as possibilidades.

As vezes, acho que sofro de pouca memória. Vivo a vida de instantes. O que passou, já não é mais de minha competência. Não enxergo o além da curva.

Anotarei a data do seu aniversário. Não será um retrocesso, mas uma evolução para o que ainda não vive em mim. Não temo o que não sou,

Eu plageio os costumes alheios.

Duvidar de mim mesmo é necessário. É a minha alavanca para a vida, é a propulsão do meu foguete!

Duvidar do que já aconteceu é apostar na inconstância da vida. O que eu digo nem sempre aconteceu, mas com certeza foi vivido. As datas não serão lembradas, mas os personagens, já são eternos.

Esqueço para poder viver novamente. Quando lembro, não reconheço. Meu passado me é estranho.

A certidão de nascimento se perdeu no bolso com as notas do mercado.

Não ponho em ordem de importância o meu primeiro beijo, não existe um espaço na estante para o primeiro poema, meu melhor amigo emaranhou-se no sorriso dos outros.

Minhas lembranças fazem fila, na memória.
A alma é comunista.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Giz de cera.


Foto nossa de 3 anos atrás.

Lorenzo Ganzo Galarça

Minha irmã é minha filha por antecipação.

Ela reconhece a potência de ser criança; Não quer apressar o presente. Não se envergonha das palavras erradas e nem do inglês inventado. Ela se orgulha por não trair sua natureza.

Alicia ama seus bichos de pelúcia mesmo na ausência, por causa da rinite.

Minha irmã não deixou para apaixonar-se por sua infância depois da maturidade. Alicia vive a sua criança todos os dias. Minha irmã se vive a cada instante.

Tem medo de largar os gibis, porque sabe que começará a ler jornais.

Ela me chama de mano e eu respondo a todos os chamados. É o meu melhor personagem. O qual, talvez mais me esforçe em viver.

Ser o mano de minha irmã é uma dádiva. Não é atribuição sanguínea. Minha irmã me ama pelos meus allstar's furados, minhas flanelas xadrez e as meus acordes de violão.

Ela me puxa pela manga da camisa e me pede para tocar Adriana Calcanhoto! Essa menina vai longe! A Alicia me mostra, com sua suavidade, quando não estou sendo lúdico. Ela me beija por cada texto escrito, mesmo dizendo que não entende uma só palavra. Eu acho que é mentira.

Minha irmã! Deveriam criar um feriado com essa frase. “Minha irmã” é poesia total. É um rio de lágrimas de todos os tipos de choros. Minha irmã é um anjo, não tenho duvidas.

Ela é atenta aos sinais da vida. Alicia presta atenção às cores e aos sons. Ela não me chama para ver o fabuloso pôr-do-sol de Porto Alegre. Ela me convida a ver o sol, em sua mais radiante essência.

Alicia não me convida a viver os restos; ela me faz olhar o cotidiano.

Minha irmã apropriou-se da sabedoria da infância. A baixinha não entrega o alimento. Protege-se dos ataques como um bicho.

Não me preocupo com minha irmã.

Deixo com que ela se ocupe em mim.


Esse texto é a minha homenagem à pessoa que

melhor colore os meus contornos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

-Quem é? (Sou eu).


Arte de: René Magritte

Lorenzo Ganzo Galarça

Meu coração bate à porta do meu peito. Ritmado, é como se pergutasse se ainda estou aqui. A campainha distrairia o sono. O coração bota as cartas debaixo da porta.

Viver é estar recebendo visitas de nós mesmos.

O "pulsar" é a nossa metade que ainda não se apresentou ao gramado. É o nosso “vir-a-ser”. Não está dentro da boca, articulando nossos discursos, mas sim na varanda da casa. Espiando, ao contrario, pelo olho de gato.

Ele entra quando a chuva aperta.

Sempre haverá o quarto estreito com os colchões azuis, a poeria de outras roupas e a coberta de lã.

A fechadura muda constantemente. O “vir-a-ser” é atento às mudanças. Separa os brinquedos que mais gosta para brincar no banco de trás do carro, durante a viajem.

E é de caminhão que levo minha bagagem. Minhas tralhas e estradas vão pingando e escorrendo pelo caminho.

Sou um homem feito de tinta.

Não apago meu passado.
Eu diluo noutra cor.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Ninfomaníacos



Arte de: Salvador Dali

Lorenzo Ganzo Galarça



Eu, não só, acredito que existam pessoas viciadas em sexo, como acho que quem não for não deve praticá-lo.


Quem é viciado em sexo não pede companhia, pede compreensão. O sexo será como uma necessidade da alma, não como uma mera atividade do corpo.


É o pedido de solidão. Transar é ceder espaços.


A relação sexual deve ser a champagne que comemora a vida, não o Prozac que nos tira da dor.


O sexo, que não for necessário será um desperdício. Mais um tempo não-vivido.


Será como uma recompensa por mais um dia meia-boca, não como mérito da competência de continuarmos vivos.


O sexo será uma cobrança por ainda não termos morrido.


A culpa ocupará a cama inteira. Os lençóis ficarão pesados sobre nossos corpos, nús. A intimidade tirará férias.


Nosso encontro (em minúscula) terminará no chuveiro.


Distante de aquecer-se debaixo da pele, o gozo se perderá no meio do caminho.


Não existirá sinapse de corpos.


Não bastará que prepares a mesa, se não tens força para sentar na cadeira.


Minha fome é ter você ao meu lado.