sábado, 19 de dezembro de 2009

Perdendo Tempo


Arte de : Jean Basquiat

Lorenzo Ganzo Galarça


Fomos nos acomodando. Reclinado a poltrona bege e bebendo as nossas cervejas. Enquanto as mulheres rompiam paradigmas, amassavam estereótipos e se distanciavam da cozinha, os homens se acostumavam com a indiferença.

Hoje em dia, somente as mulheres são misteriosas. Guardam um segredo debaixo de cada esmalte. Todo cabelo feminino é uma biblioteca.

Os homens foram sendo decorados. Vêm com um manual de funcionamento estampado na nuca. Transformamo-nos em rebanho para sermos guiados por alguma vaqueira solidária.

Os homens não tem espaço para a inovação. É como se as "Regras do bom macho" ficassem voando por sobre as nossas cabeças.

Regra número um: Jamais elogie. Quem elogia é veado.
Regra número dois: Nunca seja atencioso. Atenção é coisa de cabeleireiro.
Regra número três: Jamais demonstre prazer na cama. Macho mesmo goza e fica quieto.

Existe uma grande confusão de conceitos. Um quarto bagunçado.

O homem relaciona virilidade com falta de respeito. Lembra a imagem imponente do pai, brigando com sua esposa, na escuridão do quarto e nos holofotes da sala. Toda sala é um palco à Augusto Boal.

Os homens acham que medo e respeito são irmãos separados na maternidade. Não querem relacionamento, querem paternalismo. O troglodita é aquele que antecipa a paternidade com uma mulher.

No sexo, apenas a mulher deve gemer. O homem fica excitado não com o lábio mordido da companheira, mas sim com o seu próprio silêncio. Sua seriedade. Seu objetivo cumprido. O gemido é a casa assombrada do desejo.

Homem na cama não busca prazer, busca medo. Deseja uma mulher submissa que o trate no dia-a-dia com a mesma entrega do quarto. Não faz idéia de que o lençól é o diário do relacionamento.

Deseja chegar a casa e receber um beijo com cheiro de roupa lavada, mas a única coisa que traz da rua é a velha camisa suada cheirando a palavrão. Quantos homens voltam para casa de roupa nova? Quantos homens lembram-se de comprar lenha para a lareira?

O homem quer possuir a mulher. Empilhá-la na sua estante, junto aos carrinhos da infância. Quer mais um troféu para mostrar aos colegas do trabalho.

Parece que perdemos em algum lugar do mundo o nosso interesse. A nossa sensualidade. Ainda estou tentando retirar os meus irmãos da casa desabada, erguer algumas palafitas sobre o rio da vida e recomeçar o aprendizado.

O homem deseja apenas receber, mas ainda não aprendeu a se entregar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Imaginação Míope


Arte de: Paul Klee

Galarça Lorenzo Ganzo


Sempre achei que tivesse uma ótima visão. Quando criança, a chamava de olhar de águia, aquela que enxerga a presa a quilômetros de distância e já calcula o ataque. Era o estrategista da observação. Revezava o silêncio com o meu bodoque.

Para o meu triste desespero, descobri, esses dias, que minha visão estava prejudicada. Não estou falando de um problema oftalmológico, mas da funcionalidade da visão. Um popular caso de imaginação míope.

Após fazer a barba, fui buscar a toalha de rosto mais próxima do balcão do banheiro. Não havia nenhuma. Procurei no armário e vi que todas tinham ido tomar banho. A única toalha que restara era uma de chão. Marginalizada pela hierarquia de poderes da limpeza, ficou excluída dos meus planos de higienie.

Tanto a toalha de rosto como a toalha de chão eram feitas do mesmo material, desfrutavam da mesma marca de amaciante, eram irmãs de comprimento e largura. Entretanto, o meu mundo decorado foi mais forte do que a sensibilidade.

Deixei a pele gripada porque não tive coragem para fugir dos limites. Todo nome é um limite. São as arestas das nossas vidas. Tenho medo de pessoas com o sobrenome muito grande, parece que mastigam as palavras quando se apresentam.

Nós nos transformamos em escravos dos nossos títulos. Investimos demais na nossa apresentação e não guardamos fôlego para o resto. Somos um restaurante fino que serve misto quente.

A observação é o contrário disso. É quando temos a capacidade de escolher um pássaro como nosso guardador de segredos, mesmo sabendo que ele jamais retornará. É quando enxergamos um barco e desconstruímos o horizonte, a fim de levá-lo aonde nunca esteve.

Observação é entender que a manhã acorda na boca dos peixes. Que o ventilador serve para nos servir as fatias.

Abandona teu nome. Troque o arranjo das letras.
Te conhecerás tanto que jamais serás esquecido.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sair de si


Arte de: Klimt

Lorenzo Ganzo Galarça


Balanço os pés descalços, enquanto sentado à beira de minhas dúvidas. Tenho tantos questionamentos. Tantos formulários a responder. Parece que guardo o meu futuro sempre perto do presente.

Passeio demoradamente por minhas avenidas. Escolho as pedras mais bonitas. Reparo em cada folha caída. Intimido-me com o silêncio de minha solidão.

Tardo a escolher os atalhos. Finjo uma densa preocupação com o óbvio. Insisto em todas as minhas ironias. Divulgo nas portas as minhas falácias.

Não guardo temores sobre meus nomes. Fico apenas com os rumores ruminantes. Identidade é fazer parte de uma invenção.

A destruição abriga um carinho de mãe. Das aves mães que empurram os filhos para fora do ninho.

Também empurro-me para fora dos meus limites.

Sair de Sí, é entrar em Lá.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Intimidade Falada

Publicar postagem
Arte de: Klimt

Lorenzo Ganzo Galarça


As dificuldades não são bagagens vindas do nascimento. Construímos nossas vidas a cada momento, a cada esquina. Toda rua é mãe de um segredo.

Os pássaros regurgitam suas habilidades com as palavras. Podem permanecer durante horas, sobre o fio de luz, jogando conversa fora. Não existe vergonha para aqueles que se vestem com pouco mais que um punhado de penas.

Já experimentei trocar o vestuário. Usar roupas mais leves. Camisas e bermudas transmitem um ar de descontração.

Descobri que o peso das roupas não está no tecido. O desconforto acontece muito antes dentro da pele, do que fora dela. Aliás, poucas coisas mudam-se pelo exterior.

Não me envergonho da minha falta de competência. De trocar as palavras. Escutar o soluço dos dentes.

Não me decorei a ponto de cumprimentar sempre da mesma forma. Acenar com suavidade. Sorrir com o canto mais bonito da boca.

Invento-me sempre para não correr o risco de esquecer o repertório.

Furto-me de qualquer conveniência. Tropeço na língua, e já saio dizendo:
-Nossa, já fiquei nervoso de falar contigo.

Ser verdadeiro dilui qualquer gafe, enaltece a companhia, honra o encontro. Faz do tropeço, cambalhota.

Reconheço: Não existe mais espaço em mim, para alguém diferente do que sou.

Posso passar a vida ao seu lado, construir nossa casa e criar nossos filhos. Não tenho dificuldade para dizer o quanto Amo. Não temo nenhum relacionamento profundo. Criar raízes em teus cabelos.

O que temo é o não-relacionamento. A falta de verdade. Os momentos desperdiçados. Abrigo-me distante das calmarias; abro portas e janelas para as tempestades.

A intimidade inunda-me com seu volume. Me afogo em teu sorriso e mergulho no suor do corpo.

Desaprendi a conviver, pois acostumei-me a te habitar.

Cumprimentar-te, um esforço; declarar-me, um ato falho.

domingo, 9 de agosto de 2009

Nervosa


Arte de: John Piper

Lorenzo Ganzo Galarça

Tenho com a chuva uma estranha nostalgia.

Toda vez que as nuvens choram, inundo-me de um misto entre saudade e desconforto. Cada gota carrega um odor distinto.

A água vai lavando os pássaros em pleno vôo e começa a escorrer pelas calçadas. As folhas bóiam como se estivessem em um imenso tobogã.

A chuva é o desabafo do céu.

Como não se sensibilizar com tamanha sinceridade?

Quando criança, não entendia o porquê do fenômeno. Ficava furioso com a limitação imposta. A chuva vinha e brincava com o pátio, me deixando em casa, apenas observando a ciranda pela janela.

Ainda não conhecia a gravidade, a composição da atmosfera, os eventos climáticos. Para mim, chuva era um desaforo. Despotismo divino.

Confesso que, mesmo hoje em dia, depois das aulas de física, das explicações dos pais, das histórias em quadrinhos, a chuva continua não fazendo sentido algum.

O conhecimento não muda os fatos. Apenas proporciona um novo entendimento sobre eles.

A chuva ainda continua a tocar piano nas avenidas. Continua a atrapalhar o trânsito. Continua tirânica em certos aspectos.

Eu mudei. Hoje em dia, aceito aquilo que não faz tanto sentido. Aprendi a dar espaço para o que não gosto. A conviver em maior harmonia com a vida.

Sinto-me casado com o céu. De aliança e nomes no cartório. A chuva é como uma mania do matrimonio. Um roer de unhas.

Chuva é um nervosismo.

Abraço o desespero. Ponho sua umidade sobre meu ombro e afino as cordas do instrumento.

Aprendi a ninar as tempestades em meus pensamentos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Segredos Compartilhados


Arte de:Sigmar Polke
Lorenzo Ganzo Galarça


Tanto os homens como as mulheres preservam certos hábitos restritos à espécie. Pequenos segredos compartilhados ao mesmo gênero.

Outro dia, encontrei uma escuta cor-de-rosa escondida de baixo da pia do banheiro dos homens. De fato, todos querem desvendar os segredos alheios.

Em casa, na suíte do quarto, os homens reclamam dos cabelos entupindo o ralo; as mulheres, da grande boca aberta do vaso. Dentro da intimidade do matrimônio, é bastante aceitável essa troca de informações secretas. É a concretização da confiança. Uma traição aceita pelo grupo.

Bem, se compartilhar segredos é intimidade, então porque os banheiros mistos não são os grandes casamenteiros do século XXI ?

É simples, banheiros mistos são câmaras de higienização. É o único lugar do mundo aonde você perde a cidadania, o sexo, a liberdade. Você deve deixar a sexualidade do lado de fora antes de entrar. O banheiro misto tornou-se uma vala comum.

De fato, é uma pena. O banheiro misto poderia ter sido o buraco da fechadura dos sexos. Foi trocado por mais uma simples fachada de direitos iguais.

Ele tornou-se, de fato, golpe de misericórdia das singularidades. As pessoas envergonham-se de suas particularidades dentro de tanta indiferença. É como se houvesse alguém fazendo pouco caso das nossas histórias.

A beleza da individualidade cedeu lugar à violência da produção em série.

Portanto, você, que sabe a marca do absorvente de sua namorada, você, que reclama da tampa do vaso aberta, você, que fica louco com alguns fios de cabelo no ralo do chuveiro.

Entenda: Apenas não respeitamos aquilo que ainda não aprendemos a amar.

Assim, reconhecerá que o que mais ama em sua companheira, ou em seu companheiro, é poder fazer parte de todos os seus segredos.

O Amor empresta a chave da casa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mitos não devem ser idolatrados


[John Lennon, mitificado para sempre
por Wandy Warhol.
]

Lorenzo Ganzo Galarça


Bastou, o ilustre rei da música pop, bater pela última vez os sapatos para que seus discos renascessem da empoeirada estante de LP's da sala.

Michael Jackson se juntou ao seleto grupo de artistas mitificados. Empalhados. Logo estarão esculpindo sua estátua, em cera, no museu de arte moderna de Manhattan.

A morte traz a segurança. O mundo tem medo de apaixonar-se cegamente por pessoas atuantes. Todos sabem que um astro de rock é também um ser-humano. Todos reconhecem a capacidade do erro. Do fracasso. Da difamação.

Morto não trai expectativas.

Agradeço todos os dias, ao ler o jornal, por não me deparar com uma foto de Bob Dylan dançando nu em um iate no Caribe. Seria arrasador. Quase um pedido de separação da imaginação. Da fantasia. Do meu mundo de heróis.

É assim também nos relacionamentos. Temos medo da doação. Da entrega. Dos presentes. Os homens, em geral, esquecem de celebrar as suas companheiras pelo medo de perdê-las.

Com o fim de um relacionamento, o homem sente-se livre para elogiar a ex-namorada. Ou odiá-la, pois a recíproca também é verdadeira.

Não realizamos o ódio durante o relacionamento, pois reconhecemos que amanhã poderemos amar.

Devemos entender que os relacionamentos não são construídos de certezas. Nem de constâncias. Assim como a vida, o Amor abrange apenas o acaso.

Devemo-nos permitir a ferida. O sangramento. O excesso de pré-ocupação no Amor gera empecilhos para os carinhos. O casal deve permitir-se a desilusão.

Somente o que é concreto interessa.

Mitos não devem ser idolatrados.

sábado, 20 de junho de 2009

Toda a eternidade do momento presente


Arte de: Pollock

Lorenzo Ganzo Galarça

No enfrentamento, não existe espaço para a incapacidade.

Na guerra, não existe meio termo. Em uma batalha, não se pede ao adversário um tempinho para retocar o rímel, lixar as unhas ou aparar as pontas.

É matar ou morrer. Duas alternativas, uma escolha. A incerteza não convive com a paciência. É bom ter, pelo menos, reflexos de bom gosto.

O caráter forma-se em situações de risco. Amadureci por obrigação. Cortei a primeira barba com o fio da faca.

A eternidade encontra-se nos detalhes. O momento presente que já está escorrendo pelas mãos e fundindo-se às placas da história.

Nenhum diálogo deve ser subestimado. Toda palavra, todo gesto, todo olhar carrega um conteúdo infinito.

Uma formiga com transtorno de personalidade.

A seiva da árvore é extraída do concreto na calçada.

Tudo o que se apresenta, na verdade, carrega um mundo novo atrás dos olhos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um Continente Dentro da Cama


Arte de: Egon Schiele

Lorenzo Ganzo Galarça


Todo homem deve reviver a infância ao menos uma vez dentro dos olhos de uma mulher, aceitar o convite dos ombros. Deitar-se nas solas dos pés.

As curvas de uma mulher são como um mundo novo. Cada gesto será uma nova paisagem, cada movimento trará consigo uma aurora exuberante. Cada sombra é um sol.

O homem deve aninhar-se no corpo de uma mulher. Acariciá-lo como se estivesse lapidando a simetria dos lençóis na cama. Fazer carinho significa arrumar a casa para a mudança.

Arrasto-me pela vastidão dos braços. Desidrato no cheiro dos pêlos. Poderia viver para sempre entre o vale dos seios. Construir minha casa e criar meus filhos.

O corpo delas já nos serviu de abrigo. O conforto não é por acaso. Antes, vivia-se em uma mulher como filho; agora, como amante. O Amor apenas mudou de direção.

Explorem suas amantes! Descubram seus segredos. Construam cabanas em seus ouvidos e estendam toalhas de mesa em suas barrigas.

O corpo de uma mulher é um convite para a nostalgia do parto. Para o silêncio do útero. Para a fervura do sangue.

Na próxima noite, feche bem os olhos, agarre com força as pontas do travesseiro e prepare-se para mudar de endereço.

O corpo de uma mulher é um homem quando criança.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Protesto Infantil


Arte de: Antoni Tàpies

Lorenzo Ganzo Galarça


Corro os olhos pelos tristes azulejos do colégio. Aceito o desafio contra o cansaço: Atravesso corredores, subo as escadas em espiral, esquivo-me das mochilas de rodinhas. Enfrento cada gesto mentiroso...

Saídas de colégios são seminários sobre a mentira. Os pais retiram o suor da testa, ajeitam o corpo das gravatas, alisam as sobrancelhas; As mães arrumam o decote dos vestidos, refazem o caminho dos penteados, colorem suas bocas com batom para diluir a palidez da verdade.

Os responsáveis se engomam por alguns minutos para mostrarem que são bons educadores, que são atentos aos detalhes, à gola da camisa dos filhos, ao laço no cadarço dos tênis. Não é a falta de dedicação que me causa indignação, mas sim a falta de realidade.

Nenhum pai nasce com a obrigação de ser atento. A falta de preparo não é uma irresponsabilidade. Ninguém deve culpar-se ao se comparar com outro cuidador. A negação de sua natureza é muito mais vergonhosa do que um cabelo despenteado, ou uma bragueta aberta.

Criou-se uma idealização paterna e materna. O exemplo perfeito de adulto para os mais jovens. As crianças perderam a chance de terem pais diferenciados, pois todos procuram o mesmo perfeccionismo. O imperfeito foi esquecido junto com as jaquetas de couro brega. A diferenciação perdeu-se no caminho da perfeição.

Que criança que se orgulha de ter um pai que usa o terno abotoado até o fim? Que criança que enche a boca de felicidade ao ver o penteado uniforme da sua mãe? Que criança faz brilhar o olho por ver seus pais reprimindo suas naturezas?

Crianças são bichos! Sentem o cheiro da mentira, assim como os cachorros sentem o cheiro do medo! Acordem, idiotas! Seus filhos estão crescendo com o olhar cada vez mais distante!

O mundo não está entregue à geração futura! O depois se faz agora! Bebam doses extras de virtude e percepção no café, junto ao jornal.

Talvez ainda reste alguma verdade na sua paternidade.

sábado, 16 de maio de 2009

Currículo


Eles sem mim, eu com eles.

Não importam os meses, nem os anos em que se prepara para uma despedida. O script final sempre sofre alterações no decorrer do espectáculo.

A separação sempre será repentina. Surpreenderá toda e qualquer previsão. Uma separação sempre foge das possibilidades. É um dado redondo, com as faces viradas para si.

Devolvi as alianças aos meus amigos. Os uniformes do colégio, nossas fotos juntos, seus fios de cabelo. Meus boletins antigos são álbuns de fotografia. Jamais me esquecerei.

Abandonei o colégio no qual me criei para escrever meu próprio diploma. Foram oito anos inteiros de manhãs no Morro Orfanotrófio . Colégio João XXIII... Acho que fui abençoado durante a minha vida escolar. Com certeza, não só pelos professores, mas pelos colegas que tive.

Na primeira série, éramos desconhecidos. Estranhos em processo de confraternização. As amizades dos colégios são de sobrevivência, instintivas.

Fomos crescendo e superando os problemas juntos. Como cavalos selvagens, fomos subindo os degraus da escolaridade. Confesso: Tropeçando muitas vezes!

Sou o que sou porque fui meus amigos. E sei que eles também fizeram o mesmo. Habitei os corpos dos meus colegas profundamente. Construí casas e abrigos. Minha moradia debaixo de seus braços.

Escutava suas frustrações, sentia as suas feridas e dançava suas alegrias. Poderia passar horas escutando o que tinham para me dizer. Armava barracas perto de seus lábios e criava limo em suas bocas.

Nos conhecíamos tanto que nos separamos. Os relacionamentos acabam junto com os segredos. A curiosidade abriu espaço para a serenidade. A paixão, para o Amor.

Somente pude me separar dos meus amigos por confiar nas nossas amizades. A coragem é a afirmação da plenitude.

E mesmo com toda essa paz, essa tranquilidade no final. A consequência é repentina. Ainda estou fazendo o caminho mais demorado para o cartório.

Uma decisão, por mais convicta que seja, é sempre inusitada.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Trinca Não Ganha Jogo.



Arte de: Siron Franco

Lorenzo Ganzo Galarça


Na infância, sustentava tripés. Conheci a amizade em rodas de três pessoas. Meus amigos eram ímpares. Um era pouco, dois era bom, mas me acostumei a viver exageros. Atravessei correndo os limites do conforto.

Somente hoje reconheço o desafio. Ter vivido aquelas amizades, em grupos de três, não foi nada fácil. Os números ímpares não foram feitos para a sociedade. O que não pode ser divido igualmente entre as partes não merece respeito. Vivemos um comunismo invisível. Os restaurantes nunca pensaram em três amigos indo jantar. As mesas, ou são para dois, ou para quatro. Três é um número doído. Desconstroi a confiança. Amizades ímpares iniciam-se pressupondo traições.

A vida foi feita sob medida para casal. Adão e Eva não sofreram infidelidades. A limitação poupa a surpresa. Os amantes são excluídos de um casamento, por uma simples questão de praticidade. Morro de medo de manage à trois.

Minhas maiores dores foram durante essas trincas. Poderia dizer traumas para proteger-me do futuro, mas seria um desrespeito ao meu passado, que tanto me ensina. Meus antigos amigos são meus tutores de hoje. A lembrança constrói o presente.

Voltando às dores, elas foram terríveis. Nenhuma criança deve ser exposta à solidão de um assento vazio ao seu lado. Saídas de campo são assassinas. Perigosas, pois se escondem atrás da máscara de um passeio. Diversão por quebrar a rotina.

Os ônibus de viagens foram meus cobertores para as lágrimas. Minha criança ficou chorando na estrada. Ainda desejo visitar cada um desses assentos em que passei sozinho, sem um ombro para me escorar, sem outra bunda para me desacomodar, reivindicar espaço. Ficava só, com espaço suficiente para deitar-me. A liberdade ofendia.

Eu sozinho era ímpar, dolorido, desconfortável. Aprendi com a vida a multiplicar-me. Hoje, sou dois, quatro, dez, mil. Fiz par a minha solidão, quando estava a ponto de serrar a colchão de casal pela metade. Subtrai-se pela incapacidade de somar. A não aceitação gera retrocesso; desconforto, progresso.

Casei comigo, o que será um perigo quando dividir-me em uma mulher.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Gabriel e sua dor.


Arte de: Antoni Tàpies
Lorenzo Ganzo Galarça

Segurava com força seu próprio pulso.

Talvez, estivesse com medo de que caísse se o soltasse. Envolvia, fortemente, a mão gordinha com seus dedos. Agarrava-se a ela como se fosse a única parte de seu corpo. Era, naquele momento. Inclusive, não havia mais ninguém com ele ali. Somente ele e sua mão esquerda. Sua mão e o sangue que dela escorria.

O cachorro o mordera com frieza. Dada mais existia, além dele mesmo e de sua dor. As vozes dos pais não faziam sentido. Não poderiam fazer. Somente ele sentia aquilo. Estava convicto disso. Desrespeitava os ouvidos tapando-os para não escutar as bobagens dos familiares. Qualquer contato seria inútil, pois ele já não estava mais ali, conosco.

Maravilhei-me com a força de seu olhar. Sua atenção para o acontecimento. Dedicação com os sentimentos. Apertava a mão, prendendo a circulação do sangue. Aprisionou a dor da ferida na ponta dos dedos. Fez a palma inchar. Cicatrizou na pele o que estava para ir embora. Eternizou o momento para sempre em sua consciência.

Fez isso por segurança própria, autodefesa. Fez isso para lembrar-se, quando roer as unhas, da mordida do cachorro. Seria perigoso que tivesse esquecido o fato. O trauma protege, mas não cura. Imortaliza e não deixa renascer. Nenhuma mordida daquele momento em diante seria original. Todas se espelhariam no ataque a infância. O presente criaria atalhos para o passado.

E se ele não tivesse prestado atenção? E se tivesse deixado o sangue coagular? O que seria dele e daquele encontro com o cachorro de sua avó, se ele não o houvesse respeitado, escutado o que tinha para dizer?

Talvez, Gabriel, deixaria de ser Gabriel. Sua mão ficaria para sempre, entre os caninos do cachorro. Perderia um pedaço de seu corpo. Seria um leproso até que alguém lhe mostrasse uma foto do acontecimento. De preferência, uma que mostrasse o sangue pingando e a raiva escorrendo pelo seu olhar. Mas não haviam máquinas fotográficas naquele instante. Ninguém se preocupou em registrar o episódio. Em anotar em um diário da família. Todos confiaram a tarefa a Gabriel. Entregaram a ele a possibilidade de ser esquecido por si próprio.

Graças a Deus, não o fez.

Não, ele agarrou sua mão com força! E até hoje a mantém com uma cordinha presa na cintura das bermudas.

domingo, 15 de março de 2009

Porto Seguro.


Arte de: Edgar Degas

Lorenzo Ganzo Galarça

Ela não puxava o freio de mão.

Talvez por medo de parar em algum lugar. Estacionar na vida. Nômade como o pai, viajava de porto em porto, aceitando as tempestades. Reconhecendo que não poderia ficar. Abandonava para não ser abandonada.

Começou na escola, quando não tinha força para suportar a pressão dos amigos. Aguentar na pele as brincadeiras maldosas. Começou, quando ficar sentada não era mais confortável. Estava sempre em movimento. Uma progressão que desrespeitava os intervalos. Típica revolucionária.

Menina de sapatilhas e de peito erguido. Aprumada como uma vela náutica. Panejava, às vezes, mas logo retomava o rumo. Era, também, um pouco insegura. Sua capacidade a assustava. Seu corpo se compromissava sem a permissão da alma. Pobrezinha, seu caráter era mais forte que as vontades.

Talvez por isso, foi assim, solitária, em silêncio. Tinha medo da própria boca. Sua língua era como um animal feroz, incrivelmente forte e violento. Restava domesticá-lo e demonstrar os valores.

Mais tarde, depois da passagem dos anos, do nascimento dos filhos e independência financeira, pôde acalmar-se um pouco. Mas também não muito para não perder o ritmo. Disciplinada pelo acaso, regrada por si própria. Um dever nunca foi dolorido.

Hoje, está mais serena, com tempo para apreciar o horizonte que batalhou a vida inteira para conquistar. Desfruta dos tijolos da casa, do chão que pisa, do ar que respira, desfruta até dos seus problemas.

Já arrisca escolher as cores dos azulejos, o tecido das cortinas. Está, pela primeira vez, se sedentarizando, pois nunca havia se sentido merecedora.

Hoje, a vi tremendo as unhas vermelhas sobre o freio do carro. Quase com vergonha do ato. Uma mudança súbita de apetite. A alavanca do destino. Aquele instante mudaria sua vida. Enfim, puxou o freio de mão.

Talvez esteja mais segura do seu lugar, do valor que representa, da importância do seu serenar. A menina de sapatilhas, talvez, esteja, finalmente, se permitindo errar os caminhos, pois reconhece a estrada quando a vê.

terça-feira, 10 de março de 2009

Banheiro Masculino.


Arte de: Portinari
Lorenzo Ganzo Galarça


Lembrou-me os egípcios carregando toneladas e toneladas de pedras. Um operário salgando o pão com o suor do rosto. O trabalho escravo. O suor do corpo banhava os braços negros, como a noite. Banhos de esforço. Lágrimas do corpo.

Esfregar o chão, também não é fácil. Deixar ilustre o que os outros tratam como lixo. Ainda hão de olhar o chão como se enxerga o céu. Acredito que as pessoas conseguirão pisar nas nuvens. Ter respeito pelo que da sustentação. Amor ao ombro quente da terra.

Conheci uma pessoa que não se cansa de acreditar nas outras. Guarda o brilho do olho como promessa, aceno de mão como entrega. Limpava os vidros do banheiro como se limpasse os próprios dentes. Passava fio-dental nos azulejos, cotonete nas maçanetas.

Esse cara, não conseguia esperar até o final de semana para dançar nos bailes e nas rodas de samba. Trazia swing para dentro dos corredores, pandeiros para dentro de sua boca, euforia para a ponta dos dedos.

Sapateava com a vassoura, como se fosse sua namorada. Deslizava cuidadosamente os dedos pelo cabo. Estava conquistando-a, conquistando o seu trabalho. Dançava para continuar vivo. Aquecer-se da baixa temperatura dos olhares.

Não parou de cantar, um só minuto, desde que entrei no banheiro para mijar. Incrível! Sustentava uma nota por muito mais tempo do que Pavarotti jamais sonhou. Não só me arrancou a pressa para não perder o filme, que passava no cinema, como me fez sentar na privada e assistir de camarote ao seu show.

Transformou o banheiro em seu palco. Seu trabalho, de faxineiro, em sua alegria. Cantou e gritou como os meninos jogam bola antes de descobrirem que são craques, que seus dribles valem fortunas e que seus sambinhas comovem países inteiros.

Porto Alegre é a única cidade, de que tenho notícia, a cobrar couvert artístico para se entrar no banheiro. Qualquer dia desses vão demolir alguns boxes para encaixarem um piano.

Parem de fazer doações ao Multipalco. O segredo, agora, é investir em banheiros masculinos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Uma Recordação.


-Capa e contra-capa do caderno-

24/09/1998
19:00 h

Aos 5 anos de idade.

Conversa registrada num pequeno caderno (Diário do Lorenzo) pela minha babá da época.

Lorenzo-Tia Thais, como é que as pessoas ficam quando morrem?
Thais-Cai a pele, a carne e fica só o osso.
Lorenzo- Mas Tia Thais, como é que eles ficam? Os olhos.
Thais- Algumas pessoas morrem de olho aberto, outras de olho fechado, assim como a boca.
Lorenzo- Por isso que quando eu tô brincando de pular eu fecho os olhos. Para não morrer de olho aberto.
Thais- Por quê, Lorenzo?
Lorenzo- Porque eu acho muito feio.
Lorenzo- Tia Thais, que tipo de caixa que tu quer ser enterrada?
Thais- Uma bem grande, porque a tia Thais é grande.
Lorenzo- Morto não escolhe, porque está morto. Tem que pedir a caixa certa antes.

Pois é, parece que quanto mais perto do nascimento, mais a gente entende sobre a morte.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A infância no céu da boca.


Arte de: Portinari
Lorenzo Ganzo Galarça


Duas semanas de mar e praia em terras Catarinenses me deixaram com saudade de Porto Alegre. Foram duas semanas de isolamento completo. Longe das notícias, longe do Gauchão, e graças a Deus, longe da Copa do Brasil.

Nessa quinta-feira, a saudade do colorado me fez agarrar com força a minha camisa vermelha, separar os trocados para o ônibus e correr contra o relógio para chegar a tempo no Gigante.

Subi correndo a rampa. O coração na palma da mão e os gritos guardados dentro da boca. Quase pulei a roleta, na hora de entrar. Minha criança tomou conta de meu corpo. Estava indo mostrar meu dente de leite aos jogadores.

Depois de estar bem acomodado, com meu copão de coca-cola, empurrei o time para frente, ou pelo menos tentei. O colorado parecia tímido frente ao time do Novo Hamburgo. Pouco chegou ao ataque, e quando chegou desperdiçou. Foi um desrespeito com o adversário.

O time estava de férias. Os jogadores não haviam voltado dos bailes de carnaval. Taison gastou todo o seu samba no final de semana. Sobrou pouco para a bola.

A calmaria do estádio fez com que a minha euforia ficasse pequena até o fim do primeiro tempo. Sem um gol para que o corpo se ocupasse, a fome começou a tomar lugar na ordem de importância fisiológica.

Comprei um salgadinho Elma Chips, daqueles que enganam o estômago, logo no início do segundo tempo. Depois de quase 15 minutos mastigando aquele isopor borrachento, tive uma incrível surpresa, que me fincou o peito com força.

E não foi o oportunismo do Nilmar em uma bola escorada pelo Klébler dentro da pequena área do Novo Hamburgo que me fez repassar grande parte da minha infância.

Com o colorado indo para frente com velocidade, não tive tempo de olhar para dentro do saco de salgadinho e escolher o menos gorduroso. Enfiei na boca a primeira coisa que as mãos encontraram. Foi o brinde. Uma legitima surpresa!

Quando pequeno, discursava com a mãe, argumentando o porque ela deveria me comprar salgadinhos no armazém ao lado de casa. Inventava teorias malucas sobre alimentação e saúde. Passava a tarde inteira bolando um plano para conseguir enganá-la. Na volta do colégio, eu ficava passando a limpo um pedaço de papel com o discurso.

Querida, ela fingia que acreditava nas minhas teorias. Estimulava minha criatividade. Questionava as minhas téses. Treinou-me para os diálogos. Me ensinou a como temer a boca e a como respeitar as palavras. Dizia que a palavra é a arma mais perigosa contra alguém e contra si próprio. Uma faca de dois gumes.

Fazia de tudo para conseguir o salgadinho, mas o que eu realmente gostava era da surpresa. Às vezes até abria o pacote por baixo para pega-la mais rapidamente. Antecipava o prêmio. Não aguentava a ansiedade de ficar revirando a comida com os dedos. A surpresa acabou tornando-se usual. Malditos fabricantes! Nunca deram um vexame.

O que para mim há 8 anos atrás era a conquista de uma luta, recompensa por acreditar no sonho, esperança no fundo do pacote; hoje, foi somente um troço que pus na boca. Senti o gosto do passado. Levei minha infância ao céu da boca

Domingo tem Grenal...

Honrarei melhor aquele que já fui.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Bolsa de Mulher.


Arte de: Andy Warhol

Lorenzo Ganzo Galarça


Separados na maternidade, as bolsas das mulheres seguiram um rumo diferente dos armários e gavetas. Criaram alças, braços para serem carregadas por suas vidas.

Um pequeno caos portátil. Buraco negro em plena face terrestre.

Não interessam os estudos, adivinhações, ou mágicas. Um homem nunca será capaz de decifrar o enigma de uma bolsa feminina. Decorará o seu formato, guardará seu cheiro, durante dias nas narinas, mas nunca saberá o que ela carrega. Homens, em geral, não são bons decoradores. Não possuem olhos para interiores.

Bolsa de mulher tem cadeado que só se abre com as unhas.

As mulheres reconhecem a força do vento. As pálpebras sabem o peso do olhar. O corpo responde suave à gravidade. A aceitação é leve. O formato dos pés acompanham a areia úmida.

Mulher é um bater de asas.

Homens não tem competência, e nem paciência para carregar bolsas. Até mesmo as maletas de couro marrom, que faziam par aos chapéus, estão saindo de circulação. O charme se perdeu em alguma esquina do desenvolvimento. Os homens resumem-se a finas carteiras sem espaço para uma lembrança.

A praticidade roubou o lugar dos papéis de bala, das declarações de Amor em guardanapos e dos pequenos presentes que o cotidiano nos reserva.

Uma flor vadia, encontrada em uma esquina, não poderá dormir junto ao casal, zelar o matrimonio à distancia da cômoda, ao lado da cama. Terá de ficar esperando um alguém que não a enfie no bolso e estrague suas pétalas.

Uma flor sem vida, floresce nos cabelos de uma mulher. Nutre-se da sua beleza.

As mulheres não carregam bolsas para prevenirem-se do acaso.
Mas sim para abraçarem os imprevistos.

Gêmeos e o Socialismo.


Imagem de: Deviantart.com
Lorenzo Ganzo Galarça

É triste, mas, em geral, irmãos gêmeos enfrentam um regime socialista na infância.

Fui jantar em um restaurante, e vi duas crianças, gêmeas, sentadas nas cadeirinhas de bebês. A questão é que não eram cadeirinhas de bebês comuns, era uma espécie de beliche, uma cadeira grande com dois andares. Quase uma reunião de condomínio.

Irmãos gêmeos unem-se, fundem-se para poder suportar os pais. Precisam vencer a ditadura Stalinista do quarto. Os pais terão de comprar uma van para que a dupla possa sentar no banco da frente, quando a idade certa os alcançar.

As despesas no final do mês não serão tratadas individualmente. Se os filhos tiverem nascido no mês de Dezembro, perto do natal, os pais terão que dar os presentes em prestações, ao longo do ano.

Os pais não se permitirão o carinho exagerado, extravagante, com fundo colorido e luzes piscantes. Nenhum momento poderá ser único com um dos filhos, pois terão de compensar os segundos não vividos com a outra criança.

Os pais de gêmeos são excessivamente cuidadosos. Cortam, milimétricamente, as fatias do bolo de aniversário. Não se permitem tropeçar na criação dos filhos. As crianças crescerão sem saborear o gosto da inveja.

Bons pais são aqueles que deixam com que os filhos sintam e presenciem tudo o que lhes pode ser vivenciado. Amar não é proteger, é ensinar a lutar. Pais não são cuidadores, são educadores.

O Amor não pode ser repartido. É sentimento que se devora. Não se mede o tamanho, nem a voracidade da mordida. O carinho não aceita conta gotas.

Quem ama acorda com o maxilar doendo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Auto (nomia).


Arte de: Modigliani

Lorenzo Ganzo Galarça
Alicia foi dormir com os primos.


Foi-se com os cachos, e na pressa, esqueceu de se despedir. Apanhou a mochila com os remédios e a escova de dente, e raptou-se para longe.

Passar, hoje, pelo seu quarto bagunçado e não encontrar sequer um cílio perdido foi dolorido. Sua infância esparramada pelo chão em forma de gibis e almofadas cor-de-rosa.

Chorei sua ausência, em coro, com os lençóis e travesseiros.

Ela não foi cuidadosa. Não se despediu das bonecas como quem reconhece e respeita a incerteza do acaso, a subjetividade dos tempos.

Não, o barulho do portão não foi o suficiente para que voltasse atrás e beijasse o assoalho carinhosamente.

Sempre tive a chance de redimir meus pecados com Alicia, antes de qualquer separação. Sempre tive seus ouvidos atentos às minhas declarações de Amor.

Minha irmã rejeitou a despedida como uma criança que pula o buffet de saladas, num restaurante.

Sinto com Alicia a serenidade da morte. Não tenho nada a dizê-la, que já não esteja perene em sua alma.

Minha irmã me tornou presente na ausência.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Escoamento


Arte de: Paul Klee

Para Fabrício Carpinejar, que tanto me inunda por deixar escorrer aquilo que não consegue guardar entre os dedos.

Lorenzo Ganzo Galarça

Fui guri de sinaleira.

Fui malabarista de butiás, no quintal dos avós. Tinha vergonha de me apresentar em público. Recorria aos espelhos d'agua como platéia. Tinha medo de que me arrancassem a arte. Guardei-a para mim, em silêncio.

Agora, sei que o que é meu ninguém me tira. Tive de esperar o tempo, para que o tempo, agora, me espere. O silêncio feito na infância são os gritos de agora. Antes, não possuía ouvidos para minha boca. Me comunicava por sinais com a grama, e com as raízes que se espreguiçavam para fora da terra.

Me espreguiço para ver até onde meus braços vão. As unhas crescem para fora do corpo. Querem a sua autonomia. As unhas pedem independência das mãos. De que serviriam as extremidades, senão para estremecer a alma.

Se conquista pelos dedos, pelo toque, pelo sentimento. O ser humano é um prato quente, que se come pelas bordas. A paixão queima o céu da boca, arde forte na saliva.

Aprendi a mostrar meus malabarismos. Não tenho medo de ser atingido por quem trafega pelas ruas.

Eu pego carona.

Saí do meio-fio.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Sais e Minerais


Arte de Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça

-Ela está morrendo.

Foi o que ele me disse, sem poupar as rugas da face de seu sofrimento.

Algumas lágrimas ameaçaram chorar, assim como as folhas, que aos poucos iam caindo dos galhos secos da árvore da minha infância.

Não tenho dúvidas de que ela está morrendo, avô. Minha casa da árvore, a qual nunca ficou mais do que meio metro acima do solo, foi embora para outro quintal. A vida daquele Salgueiro estava nos os churrascos em família, nos domingos, os gritos das primas, as várias tentativas de acampamento e os castelos de tijolos feitos pelos netos.

A família cresceu, e esqueceu de regar os frutos.

A árvore da minha infância, a qual tão generosa foi com as tantas gerações de pássaros e insetos, agora recolhe seus braços para poder, enfim descansar tranquila. Resolveu recolher-se a semente.

Aos seis anos, tirei uma foto com o velho debaixo daquela árvore, depois; aos doze. Precisamos de uma nova. Sei que estarás, novamente, com o bigode branco, a careca limpa, as mãos na cintura e de pés descalços. Para mim, ao menos, manténs a simetria de um construção tua.

Sem dúvidas, és o teu melhor projeto.

Usaste a árvore como desculpa para não atrasar o almoço. Tu sabias que eu entenderia. Afinal, somos irmãos de criação.

Tua lucidez me espanta.

Tens os olhos abertos de mais para poder sonhar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Esqueçer é lembrar de viver


Arte de: Paul Klee

Lorenzo Ganzo Galarça

Faço coleção de copos.

Minha sede não sacia com um só copo d'agua sobre minha escrivaninha. Preciso de vários. Todos da casa, se possível.

Os vários copos lembram-me da minha quantidade de líquido, no corpo. Se estou hidratado, ou não.

Preciso que a vida limpe as engrenagens do meu funcionamento.

Eu duvido de mim. Não me conheço a ponto de estipular certezas, em meu corpo. Duvidar é acreditar no êxito; ter certeza, é não reconhecer as possibilidades.

As vezes, acho que sofro de pouca memória. Vivo a vida de instantes. O que passou, já não é mais de minha competência. Não enxergo o além da curva.

Anotarei a data do seu aniversário. Não será um retrocesso, mas uma evolução para o que ainda não vive em mim. Não temo o que não sou,

Eu plageio os costumes alheios.

Duvidar de mim mesmo é necessário. É a minha alavanca para a vida, é a propulsão do meu foguete!

Duvidar do que já aconteceu é apostar na inconstância da vida. O que eu digo nem sempre aconteceu, mas com certeza foi vivido. As datas não serão lembradas, mas os personagens, já são eternos.

Esqueço para poder viver novamente. Quando lembro, não reconheço. Meu passado me é estranho.

A certidão de nascimento se perdeu no bolso com as notas do mercado.

Não ponho em ordem de importância o meu primeiro beijo, não existe um espaço na estante para o primeiro poema, meu melhor amigo emaranhou-se no sorriso dos outros.

Minhas lembranças fazem fila, na memória.
A alma é comunista.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Giz de cera.


Foto nossa de 3 anos atrás.

Lorenzo Ganzo Galarça

Minha irmã é minha filha por antecipação.

Ela reconhece a potência de ser criança; Não quer apressar o presente. Não se envergonha das palavras erradas e nem do inglês inventado. Ela se orgulha por não trair sua natureza.

Alicia ama seus bichos de pelúcia mesmo na ausência, por causa da rinite.

Minha irmã não deixou para apaixonar-se por sua infância depois da maturidade. Alicia vive a sua criança todos os dias. Minha irmã se vive a cada instante.

Tem medo de largar os gibis, porque sabe que começará a ler jornais.

Ela me chama de mano e eu respondo a todos os chamados. É o meu melhor personagem. O qual, talvez mais me esforçe em viver.

Ser o mano de minha irmã é uma dádiva. Não é atribuição sanguínea. Minha irmã me ama pelos meus allstar's furados, minhas flanelas xadrez e as meus acordes de violão.

Ela me puxa pela manga da camisa e me pede para tocar Adriana Calcanhoto! Essa menina vai longe! A Alicia me mostra, com sua suavidade, quando não estou sendo lúdico. Ela me beija por cada texto escrito, mesmo dizendo que não entende uma só palavra. Eu acho que é mentira.

Minha irmã! Deveriam criar um feriado com essa frase. “Minha irmã” é poesia total. É um rio de lágrimas de todos os tipos de choros. Minha irmã é um anjo, não tenho duvidas.

Ela é atenta aos sinais da vida. Alicia presta atenção às cores e aos sons. Ela não me chama para ver o fabuloso pôr-do-sol de Porto Alegre. Ela me convida a ver o sol, em sua mais radiante essência.

Alicia não me convida a viver os restos; ela me faz olhar o cotidiano.

Minha irmã apropriou-se da sabedoria da infância. A baixinha não entrega o alimento. Protege-se dos ataques como um bicho.

Não me preocupo com minha irmã.

Deixo com que ela se ocupe em mim.


Esse texto é a minha homenagem à pessoa que

melhor colore os meus contornos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

-Quem é? (Sou eu).


Arte de: René Magritte

Lorenzo Ganzo Galarça

Meu coração bate à porta do meu peito. Ritmado, é como se pergutasse se ainda estou aqui. A campainha distrairia o sono. O coração bota as cartas debaixo da porta.

Viver é estar recebendo visitas de nós mesmos.

O "pulsar" é a nossa metade que ainda não se apresentou ao gramado. É o nosso “vir-a-ser”. Não está dentro da boca, articulando nossos discursos, mas sim na varanda da casa. Espiando, ao contrario, pelo olho de gato.

Ele entra quando a chuva aperta.

Sempre haverá o quarto estreito com os colchões azuis, a poeria de outras roupas e a coberta de lã.

A fechadura muda constantemente. O “vir-a-ser” é atento às mudanças. Separa os brinquedos que mais gosta para brincar no banco de trás do carro, durante a viajem.

E é de caminhão que levo minha bagagem. Minhas tralhas e estradas vão pingando e escorrendo pelo caminho.

Sou um homem feito de tinta.

Não apago meu passado.
Eu diluo noutra cor.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Ninfomaníacos



Arte de: Salvador Dali

Lorenzo Ganzo Galarça



Eu, não só, acredito que existam pessoas viciadas em sexo, como acho que quem não for não deve praticá-lo.


Quem é viciado em sexo não pede companhia, pede compreensão. O sexo será como uma necessidade da alma, não como uma mera atividade do corpo.


É o pedido de solidão. Transar é ceder espaços.


A relação sexual deve ser a champagne que comemora a vida, não o Prozac que nos tira da dor.


O sexo, que não for necessário será um desperdício. Mais um tempo não-vivido.


Será como uma recompensa por mais um dia meia-boca, não como mérito da competência de continuarmos vivos.


O sexo será uma cobrança por ainda não termos morrido.


A culpa ocupará a cama inteira. Os lençóis ficarão pesados sobre nossos corpos, nús. A intimidade tirará férias.


Nosso encontro (em minúscula) terminará no chuveiro.


Distante de aquecer-se debaixo da pele, o gozo se perderá no meio do caminho.


Não existirá sinapse de corpos.


Não bastará que prepares a mesa, se não tens força para sentar na cadeira.


Minha fome é ter você ao meu lado.