terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tóxico.


Imagem:Deviantart.com

Lorenzo Ganzo Galarça.

Desentusiasmo-me ao ver uma pessoa tragar um cigarro.

Ele é a carência do pirulito que não lhes foi permitido na infância.

O açúcar virou nicotina. Fumar é estar em falta de si-próprio.

É o preenchimento dos abraços não dados.

Os fumantes ainda não saíram de casa. São inquilinos da sua dependência.

Você foi fraco, não suportastes tua inquietude. Tampastes a boca do entusiasmo.

Não te resumistes aos dentes amarelos dos salgadinhos. As chupetas não foram o bastante para proteger-te de tuas palavras.

Eternizaste a infância por temer esquecê-la.

Os tempos não voltam;
Os pulmões também não.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sobre o Amor


Arte de: Gustav Klimt
Lorenzo Ganzo Galarça

Que me desculpem os gregos, mas Eros foi um farsante.

O Amor não pode ser possuído. Não se ama alguém, se está amando, ou não. A conexão amorosa não é algo duradouro. O Amor esconde-se em cada sílaba, em cada suspiro e em cada gesto, esperando o momento exato para se mostrar. É quase que um ataque à alma.

Ele vem sem dar avisos. Simplesmente surge, como um soluço. Mesmo assim, não chega a ser invasivo, ele é a própria licença.

Ele não rouba a coberta para o seu lado da cama, o Amor aquece os pés no calor do quarto.


O seu tempo de vida é instantâneo. Pode-se ter vários amores durante uma conversa, ou pode-se não ter nenhum. Ele é puramente existencial.

Não se escolhe estar amando. Não é uma reação química ou cerebral. É um milagre, vindo da mais poderosa prece do corpo.

O Amor não é apressado. Desconhece a pressão. Ele não está comprimido e nem comprometido.

O tempo não existe para ele. Fará com que os beijos nunca terminem e que os dedos nunca se cansem.

A aquarela se mistura nas lágrimas. Seremos tão os outros que nos esqueceremos de que estamos sós.

O Amor é a compainha que vai embora, deixa o café passado no balcão da cozinha e leva as chaves de casa.

Me espere até amanhã...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Brasil é uma família ausente.



Lorenzo Ganzo Galarça

Se não fossem os desabamentos e as chuvas, em Santa Catarina...

O Brasil é como uma família que só se encontra quando um familiar passa mal. É aquele tipo de encontro chato, aonde as pessoas acabam contando as novidades as outras quase por obrigação. Tudo com aquela lentidão moribunda.

Traio a minha tradição quando digo que gostaria de um Brasil mais unido. O Rio Grande enraizou sua cultura em disputas de poder: Metaleiros e Sertanejos, Chimangos e Maragatos, Colorados e Gremistas. Porto Alegre é placo da discórdia.

Todas aquelas brincadeiras tais como: Gaúcho viado, Baiano largado e Carioca folgado. É o jeito com que a nossa grande família se comunica. 9.372,614 km2 é muita estrada de chão batido para reunir todos numa ceia de natal.

O Brasil só é conjunto no nome. Somos como formigas individualistas que se aglomeram pois tem medo do perigo. O Brasil não é país porque quer. É porque precisa.

Ele é pleno de mais para ser unido. Não temos terremotos, não conhecemos furacões, não sofremos atentados terroristas e não somos palco para guerras étnicas. É impossível uma família permanecer junta frente a tão pouco movimento.

Acredito que preferimos ficar em casa, assistindo ao jornal nacional, um dos poucos inter-ligantes da nossa convivência.

Minha família me abandonou.
Minha pátria sou eu.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Magia Feminina


Arte de: Andy Warhol

Lorenzo Ganzo Galarça


Ou é verdade que as mulheres possuem poderes especiais, ou os homens são todos uns tarados. Desconheço meus limites na presença de uma moça.

As mulheres se apropriam dos instantes. Com seus olhares, conseguem desconstruir o mundo em segundos. Não, menos que isso. Em instantes, as mulheres transformam-se na única razão para a existência do homem, na única explicação para o caos, que é a vida. O reinado dura enquanto elas caminham. Depois, tudo se acaba.

As mulheres, quando vêem um homem interessante, pensam se ele daria um bom pai para os seus filhos, se ele seria atencioso no Amor e se teria uma boa condição financeira. As mulheres têm uma instrução para o convívio familiar. Elas são mais dedicadas ao Amor

Infelizmente, para o homem isso não existe. A paixão pelo instante é tão grande que o fascínio bloqueia, até mesmo, os estímulos sexuais. Enrolamos a língua, esquecemos a idade, dizemos adeus em línguas estrangeiras e até mesmo trocamos de time de futebol, se for conveniente.

O homem não pensa em absolutamente nada na presença de uma mulher encantadora. A paixão é tão intensa que ocupa o corpo todo. Não sobra espaço para questionamentos, juízos de valores ou quaisquer outras coisas relacionadas a atividade cerebral.

O poder criativo resume-se a cartas de Amor, jingles com o nome dela, no chuveiro e pequenas poesias piegas, nas orelhas dos cadernos. O homem é um artista no Amor.

Se para admitirmos que estamos apaixonados chegamos próximos a dor do parto, imaginem como deva ser para um homem pedir uma mulher em casamento. É o grau máximo de traição da espécie. Dentre os amigos, é praticamente admitir a homossexualidade.

O pedido de casamento de um homem não representa somente a vontade de compartilhar a sua vida com outra pessoa. Representa uma morte de quem se é. A mesma tinta que assina o certificado de união, rubrica o atestado de óbito. A morte nada mais é que um inicio ao avesso.

O homem casa-se, não por pensar no futuro, mas sim por querer o instante cada dia mais presente. O homem não pode pensar na sua mulher como sua esposa. Deve pensar nela como se não fossem dormir juntos na mesma cama, todas as noites.

O homem não suporta a certeza do casamento. Ela faz com que duvide da sua sexualidade. Ele precisa conquistar sua mulher todos os dias para provar, para si, que ainda é homem.


O homem se trai para não trair.