quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Yo Soy Medico.



Lorenzo Ganzo Galarça

Sentado no banco de trás do carro, o garoto fala:
-Pai, tu sabe que hoje, lá no colégio, eu marquei dois gols. Sou um ótim...
- O pai atende ao celular-
- Sim, Alexandre. Fale, não, não estou ocupado. Pode falar. Manda!

Os filhos de médicos crescem vendo seus pais dando atenção, urgente, a outras pessoas. Sempre achei que os médicos possuem uma posição muito linda, mas ao mesmo tempo muito perigosa, frente a sociedade.

A de cuidar do outro.
Como não se sentir grandioso?
Como não ser arrogante?

É muito raro encontrarmos um médico que não faça diagnósticos no filho.
É muito raro encontrarmos um médico que não aborde as doenças no cenário familiar.
É muito raro encontrarmos um médico que receite um bom futebol e um banho de mangueira à uma criança.

O controle, como um vírus, fica solto no ar de casa.
Ele está em cada centímetro quadrado em que o filho tem a chance de se machucar para chamar a atenção. Essa é a forma que ele encontra de partilhar do seu amor (sim, em minúscula) . Ser medicado, cuidado e super-visionado, o que está longe de ser Amor, de verdade.

Se estabelece uma relação paciente-doutor. A criança arranja uma forma de controlar o carinho do pai. Ela sabe que "um médico nunca falha no seu dever", é claro que sabe.

Ela sabe da vergonha que existe por baixo da mascara de homem-aranha. Ela sabe do medo por debaixo do uniforme de super-homem.
A criança sabe que o pai não vai afrouxar a gravata e assistir ao futebol.
Ele estará, impecavelmente, limpo e pronto para socorrer.

Esses médicos se deixam ser controlados pelas crianças, porque enquanto estiverem de jaleco branco, eles terão a "CERTEZA" que nada pode dar errado. O amor do filho não vai ir embora e a esposa não vai negar-lhes um beijo.

Eles estarão seguros, dentro das suas pequenas bolhas de conhecimento.

Eles tem medo de esquecer, por uns instantes que são médicos, corre o risco de se machucarem e não saber como se curar.

Eles tem medo do acaso. Tem medo da vida.
Não conhecem o ímpeto da coragem de se entregar à lou-cura.

Injeção na alma, cura eterna.
O Amor é medicação que não se mede a dosagem.

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