sábado, 29 de novembro de 2008

Biólogo Autista


Arte de: Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça


Não me incomodo mais com a maquiagem feminina. Não me irrito mais com bons modos e risadas forçadas. Te deixarei pagar a conta, não me importo mais.

Tenho passado por um processo de aceitação muito intenso. Antigamente, se visse um cara com aquelas camisas de gola da Lacoste servindo uma farta taça de vinho tinto a sua companheira ficaria perplexo. Gritaria comigo mesmo, declamaria discursos existenciais e diria coisas do tipo: “Por quê?! Por que esses dois idiotas usam essas máscaras e fogem, cada vez mais, na natureza do Homem?!”

Hoje em dia, dou-me conta que minha rebeldia não fazia sentido. Ela era como um protesto maloqueiro, sem grife e sem patrocínio. Era como um intelectual onipotente, que guarda suas inteligentíssimas observações para si próprio porque tem medo da critica.

Antigamente, me responsabilizaria por todos os casais, como um assistente social. Tudo em absoluto silêncio. Meu deliciamento se resumia aos olhares cheios de desdenho e a risadinhas indevidas durante a janta.

Não só entendi que a minha rebeldia, por ser odiosa, não tinha potência criativa e ativa como acho que tenho aprendido certas coisas com esses casais, antigamente tidos como, metidos a besta. Meu pior pesadelo se concretizou. Vi-me colocando a mão na frente da boca antes de tossir!


Contra minha vontade, aceitei que esses bons modos não deixam de ser um investimento no Amor. Uma espécie de cuidado com o outro, que também somos nós.


Para ser sincero... Quero mais é que se explodam todas essas palavras e idéias sobre as pessoas! Me vejo, as vezes, como um biólogo autista estudando a fauna deste louco mundo em que vivemos.

Acredito que eu, o menino que nasceu no mato, esteja conhecendo a cidade e as pessoas enfim. Estou, como todos, aprendendo a viver neste mundo. E o mais gostoso disso é que nunca saberemos se o certo é comer com a mão esquerda ou com a direita, levantar ou não levantar o dedinho.


A humanidade ainda está para definir o correto.

Ocupemos-nos com o bom!

2 comentários:

Cínthya Verri disse...

Difícil, hein?
hauhauhaha
Coisa boa vivenciar o novo.

Tiger IV disse...

Filho querido...
Concordo contigo e achei ótimo o texto... entretanto, existe uma diferença muito grande entre convenções sociais, tradições, bons modos de convivência social ... e respeito pelo semelhante... Os primeiros são completamente variáveis e dependem da tribo com quem andas... o respeito é uma conquista dos seres humanos, não das criaturas...
Beijo com amor...meu eterno amigo...