sábado, 20 de setembro de 2008

Amar-durecendo

Um cenário aonde as coisas podem ser o que elas querem ser.
Entre pais e filhos escuta-se:
-Filhão, tira o avião ali do chão do corredor.
-Joãozinho, pega o teu dragão debaixo da mesa e arruma o castelo antes de dormir.
Que maravilha viver em um mundo aonde tu pode.
Nada é proibido.Nada é feio.
Um mundo aonde sofás são montanhas a serem escaladas.
Aonde chuveiro é cachoeira.
Um lugar aonde as coisas não são os nomes pelas quais são chamadas.
Uma criança fantasiada poderia apostar todo o seu porquinho afirmando ser o Homem-Aranha.Porque para a criança, naquele instante, ela é o Homem-Aranha.
E nada mais importa.
A criança apaixona-se pelo instante perdidamente.
Faz como os cachorros:
Corre atrás dos carros, mas não sabe o que vai fazer com eles.
Ela pensa, não planeja.
Ela sonha, não fantasia.
Ela é linda, não maquiada.
A criança, quando pula, tem certeza de que vai voar. Mas a gravidade a nega o direito de ser livre.
Mais uma vez o mundo conspira.
O relógio branco da cozinha nos arranca o sorriso desdentado para nos dar uma arcada permanente.
Ao longo dos anos, trocamos o leite quente, protetor e materno por café. Para enfrentarmos melhor a rotina, como dizem.
Mais uma vez o mundo conspira.
Usamos o pano dos bonecos para tecer ternos e gravatas.
E assim, crescendo.
Vamos nos conhecendo.
Para que um dia, quem sabe, estarmos maduros o suficiente para sabermos ser crianças.
E voltarmos a pular de pedra em pedra, mas agora
Sabendo, em que gaveta, ficam os Band-Aids.


Lorenzo G.G.

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