quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Condição da Escolha.

A menina entra porta adentro como se fosse uma atriz de teatro.
Pergunta-me se prefiro a presilha de cabelo azul bebê, rendada; ou a presilha de cabelo azul bebê, rendada, e com pequenos laços cor-de-rosa.
Francamente, são iguais a olhos desatentos.
Seriam iguais, para mim, se não estivessem sobre as condições que estavam.
Para a minha irmã fazia toda a diferença do mundo; Para mim também.
Ela precisava que eu opinasse.
Precisava que eu lhe mostrasse a condição da escolha.
Não escutou a minha opinião para reprimir uma inclinação interna sobre a qual usar.
Pelo contrario, escolheu a qual eu não tinha escolhido.
O pronunciamento da minha inclinação seria como uma chave de um guarda-roupa.
Para que pudesse abri-lo e escolher qual inclinação lhe caberia melhor.
Agora sim.
Livre para escolher.
Desfilou com seu cabelo solto.


Lorenzo G.G.

sábado, 20 de setembro de 2008

Amar-durecendo

Um cenário aonde as coisas podem ser o que elas querem ser.
Entre pais e filhos escuta-se:
-Filhão, tira o avião ali do chão do corredor.
-Joãozinho, pega o teu dragão debaixo da mesa e arruma o castelo antes de dormir.
Que maravilha viver em um mundo aonde tu pode.
Nada é proibido.Nada é feio.
Um mundo aonde sofás são montanhas a serem escaladas.
Aonde chuveiro é cachoeira.
Um lugar aonde as coisas não são os nomes pelas quais são chamadas.
Uma criança fantasiada poderia apostar todo o seu porquinho afirmando ser o Homem-Aranha.Porque para a criança, naquele instante, ela é o Homem-Aranha.
E nada mais importa.
A criança apaixona-se pelo instante perdidamente.
Faz como os cachorros:
Corre atrás dos carros, mas não sabe o que vai fazer com eles.
Ela pensa, não planeja.
Ela sonha, não fantasia.
Ela é linda, não maquiada.
A criança, quando pula, tem certeza de que vai voar. Mas a gravidade a nega o direito de ser livre.
Mais uma vez o mundo conspira.
O relógio branco da cozinha nos arranca o sorriso desdentado para nos dar uma arcada permanente.
Ao longo dos anos, trocamos o leite quente, protetor e materno por café. Para enfrentarmos melhor a rotina, como dizem.
Mais uma vez o mundo conspira.
Usamos o pano dos bonecos para tecer ternos e gravatas.
E assim, crescendo.
Vamos nos conhecendo.
Para que um dia, quem sabe, estarmos maduros o suficiente para sabermos ser crianças.
E voltarmos a pular de pedra em pedra, mas agora
Sabendo, em que gaveta, ficam os Band-Aids.


Lorenzo G.G.

domingo, 14 de setembro de 2008

Os magia dos momentos

A essência da vida encontra-se nos momentos de intensa vivência. Encontra-se quando se pode desfrutar o que se tem.Os momentos de vivência não podem ser explicados.Quando tentamos, eles já não são mais o que foram. Nunca poderão mais ser. Agora, eles se tornaram outra coisa. Se tornaram uma justificativa.
Uma explicação de vida, de sentimentos.
São apenas frases. Sem boca para monstrarem-se.

Minha vida inteira procurei responder as perguntas que me indagavam.
Pois não gostava do desconhecido.
Do que não me era claro.
Hoje em dia, busco não justificar-me. Apenas sentir-me.Aproveitar cada segundo que meu coração bate. Independente da minha vontade.

Vejo-a descer as escadas. Batendo firme o pé no chão. Fazendo balançar o corrimão. Seus cabelos balançam de lá para cá trazendo consigo um sorriso lindo.

Estar atento à vida foi a melhor conquista que já tive. Sou grato ao mundo, por me deixar esfolar o joelho andando bicicleta. Por poder tirar a casquinha do machucado. Sou grato por me deixarem sentir. Por me deixarem amar os meus erros.

Que nunca erros foram. Cada erro foi acerto.
Um acerto diferente. Um acerto sem certeza.

Um acerto meio incerto.


Lorenzo G.G.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A vida vista de baixo

Cresci ao lado de minhas primas, junto de minha mãe, minha tia e avó.
Nas reuniões de família ficava com as mulheres.
Não assistia à grenais e muito menos escutava estórias sobre iatismo.
Comecei a falar palavrões tardiamente.
Achava feio, sem graça.
Lembro que sempre gostei das pessoas.
Do jeito como se comportavam, do jeito como diziam palavrões e do jeito como davam abraços. Era uma delícia de assistir.
Não era atacante; era goleiro.Observando o jogo dali de trás.
Sempre olhando, as vezes mais as joaninhas do que a própria bola.
Sério...
-O Lorenzo tá bem hoje?
-Sim, só está um pouco quietinho.
Cansava-me na minha própria loucura de pensamentos. Com direito a crises existências, tais como: De onde vim? Porque estou aqui? Quem sou Eu?
Entretia-me com meus brinquedos e com meus diálogos.
Com a minha rotina inventada.
Não precisava tornar aquilo público.

Lembro-me da não explicação dos meus atos.
Do sentido que a vida tinha.
Justamente por não ter nenhum.

Hoje, fui a uma reunião de família.
Nem com os homens.
Nem com as mulheres.
Hoje, fiquei com as crianças.


Lorenzo G.G.