sábado, 28 de junho de 2008

O táxista e o mundo

Miro é motorista de táxi.Há 24 anos, todos os dias, ele carrega a vida das pessoas para cima e para baixo, pelas ruas da capital gaúcha.Miro queria mesmo era ser Psicólogo.Ter um escritório bacana e um daqueles sofás em que o paciente deita e conta da sua vida.O taxista, de família pobre e pai de 5 filhos, nunca teve muitas chances de crescer na vida.O mundo era muito grande para Miro.Ela era somente mais um bebê solto no mundo, sem dentes para comer e proteger-se.Mas como a vida nem sempre é como se espera o destino de Miro foi o táxi mesmo.Com o tempo, o motorista começou até a gostar de táxi.Miro entendeu que ser taxista não era tão ruim assim como achava que fosse.Afinal, ele conversava com muita gente. Médicos,psiquiatras,engenheiros,arquitectos,estudantes,bêbados e muitos outros mais. Todos eram levados pelo seu táxi.Nunca foi psicólogo mas ajudava muita gente.As vezes, muito mais vale a vontade do que um diploma.Esse era o propósito da vida de seu Miro.Ele vivia para a conversa.Ignorante, não conhecia técnicas avançadas de conversa e tão pouco usava uma linguagem rebuscada, porém tinha uma coisa que poucas pessoas tem.Seu Miro enxergava a simplicidade da existência.Tinha coragem de aceitar a vida como ela é e então comemora-la.O taxista tinha a lucidez do seu desejo.E seu desejo era não de ter gente no seu táxi para para ganhar dinheiro e tomar umas com os amigos.Era o de ter gente no seu táxi. e somente isso.Porque Seu Miro precisava daquilo.Seu miro não ajudava as pessoas quando as levava para seus destinos e sim ajudava a si mesmo.Ele fazia do seu táxi o seu consultório de auto-análise.E ele gostava daquilo...e como gostava.


Lorenzo G.G.

domingo, 22 de junho de 2008

Ausência

Quando as nuvens tapam o sol com suas mãos de algodão.
O tempo pára
E então ele volta e respira
O que existe nesse intervalo?

É o que existe entre os versos
O que existe é um meio tom
O espaço em branco pintado de tudo e de nada.
É a respiração
A ausência
É o estar vivo

A ausência protege, informa o agora
Sem a ausência da vida, não ficaríamos presentes.
Sem a ausência estaríamos presos na inércia do tempo

E então presos permaneceriamos
Ausentes de nossos sentidos
Desconhecendo...
As mutações da vida

Lorenzo G.G.

domingo, 15 de junho de 2008

Anatomia da Capital

Não importa o que digam os mapas.
Para mim a Borges só começa depois de passar a ponte sobre o lago.
Só começa depois que a gente é engolido pelos prédios gigantes.
Pela boca do centro.
A boca de Porto Alegre.
Que engole a luz e as pessoas.
E as leva para as sombras.
Indo mais ao fundo, pela garganta, encontramos o viaduto.
Já submersos, dentro do estômago, encontramos o verdadeiro Centrão.
Mares e mares de gente e de muitas outros bichos mais.
O centrão, junto com os bichos, respira.
Mas e o Coração?
Aonde está o coração de porto alegre?
Ah! Esse sim!
Esse é o engolido.
Porto Alegre não tem um coração só não.
Tem mais ou menos 1.5 milhões de corações por ai.
Os que já foram, os que estão sendo e os que virão a ser.
Todos pulsando.
Juntos.
Dando ritmo
Às nossas vidas.


Lorenzo G.G.

domingo, 8 de junho de 2008

Auto-Conhecimento

Auto-conhecimento é um termo complicado...
Dá a idéia de que sabemos como funcionamos.
Muitos de nós dizem que até entendem como funcionam!
Nossa!
É muito gabarito para uma pessoa só!

Auto conhecimento dá a idéia de superioridade do raciocínio lógico em cima dos instintos.
Vamos combinar que é instrução difícil essa.
É como se o cérebro dissesse meio que assim para a alma:
-Fica tranquila que vai dar tudo certo.Eu... já conheço essas bocas todas.
Dentro da nossa melhor e sustentável tese sobre nós mesmos, iludimos-nos.
Achamos que nos conhecemos e que nos entendemos.Mas é que na verdade não é bem assim não.
O pior é que quando nos conhecemos tão bem, de mestrado e doutorado, não abrimos espaço para as novas inaugurações de sentimentos.
Ou seja, ficamos ligados ao que achamos que somos e que fomos ao invés de aproveitar e desfrutar o nosso novo "eu". que nasce a todo instante.

O que talvez dê pra fazer é um diálogo
Costumo dizer para as pessoas que não tenho um auto-conhecimento de mim mesmo e sim um auto-conversamento.
Um relacionamento
Um namoro.
Através da conversa, da sedução e da investigação conseguiremos, quem sabe, trilhar o caminho da felicidade e logo, a busca de nós mesmos.


Lorenzo G.G.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Banho

"Lára-ri-la--"
"Lára-ri-la--"

É assim no banho.
Eu nunca tinha parado para pensar sobre.
Hoje foi diferente.
O banho é uma das únicas horas do dia, da semana, do mês, do ano e até mesmo da vida em que algumas pessoas tem a oportunidade de se fazerem carinho.
Algumas até usam-se de esponjas para fugir do contato.
É tão bom aprender a se fazer carinho.
A gente só aprende a fazer um carinho gostoso para o outro depois de conhecermo-nos muito bem.
Bom, voltando a cantoria.
Será mesmo que o fato de que, no banho, cantamos e conversamos "sozinhos" não tem nada a ver com o contado consigo mesmo?
É claro que tem!
No banho, estamos nus.
Sem fantasias, máscaras ou disfarces.
No banho estamos com tudo o que é nosso.
Não há para onde fugir de si.
Não se pode fugir no real.
Mas o real doí.
E mesmo assim alguns de nós, seguem discursando na sua maior intimidade.


Lorenzo G.G.