terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tóxico.


Imagem:Deviantart.com

Lorenzo Ganzo Galarça.

Desentusiasmo-me ao ver uma pessoa tragar um cigarro.

Ele é a carência do pirulito que não lhes foi permitido na infância.

O açúcar virou nicotina. Fumar é estar em falta de si-próprio.

É o preenchimento dos abraços não dados.

Os fumantes ainda não saíram de casa. São inquilinos da sua dependência.

Você foi fraco, não suportastes tua inquietude. Tampastes a boca do entusiasmo.

Não te resumistes aos dentes amarelos dos salgadinhos. As chupetas não foram o bastante para proteger-te de tuas palavras.

Eternizaste a infância por temer esquecê-la.

Os tempos não voltam;
Os pulmões também não.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sobre o Amor


Arte de: Gustav Klimt
Lorenzo Ganzo Galarça

Que me desculpem os gregos, mas Eros foi um farsante.

O Amor não pode ser possuído. Não se ama alguém, se está amando, ou não. A conexão amorosa não é algo duradouro. O Amor esconde-se em cada sílaba, em cada suspiro e em cada gesto, esperando o momento exato para se mostrar. É quase que um ataque à alma.

Ele vem sem dar avisos. Simplesmente surge, como um soluço. Mesmo assim, não chega a ser invasivo, ele é a própria licença.

Ele não rouba a coberta para o seu lado da cama, o Amor aquece os pés no calor do quarto.


O seu tempo de vida é instantâneo. Pode-se ter vários amores durante uma conversa, ou pode-se não ter nenhum. Ele é puramente existencial.

Não se escolhe estar amando. Não é uma reação química ou cerebral. É um milagre, vindo da mais poderosa prece do corpo.

O Amor não é apressado. Desconhece a pressão. Ele não está comprimido e nem comprometido.

O tempo não existe para ele. Fará com que os beijos nunca terminem e que os dedos nunca se cansem.

A aquarela se mistura nas lágrimas. Seremos tão os outros que nos esqueceremos de que estamos sós.

O Amor é a compainha que vai embora, deixa o café passado no balcão da cozinha e leva as chaves de casa.

Me espere até amanhã...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Brasil é uma família ausente.



Lorenzo Ganzo Galarça

Se não fossem os desabamentos e as chuvas, em Santa Catarina...

O Brasil é como uma família que só se encontra quando um familiar passa mal. É aquele tipo de encontro chato, aonde as pessoas acabam contando as novidades as outras quase por obrigação. Tudo com aquela lentidão moribunda.

Traio a minha tradição quando digo que gostaria de um Brasil mais unido. O Rio Grande enraizou sua cultura em disputas de poder: Metaleiros e Sertanejos, Chimangos e Maragatos, Colorados e Gremistas. Porto Alegre é placo da discórdia.

Todas aquelas brincadeiras tais como: Gaúcho viado, Baiano largado e Carioca folgado. É o jeito com que a nossa grande família se comunica. 9.372,614 km2 é muita estrada de chão batido para reunir todos numa ceia de natal.

O Brasil só é conjunto no nome. Somos como formigas individualistas que se aglomeram pois tem medo do perigo. O Brasil não é país porque quer. É porque precisa.

Ele é pleno de mais para ser unido. Não temos terremotos, não conhecemos furacões, não sofremos atentados terroristas e não somos palco para guerras étnicas. É impossível uma família permanecer junta frente a tão pouco movimento.

Acredito que preferimos ficar em casa, assistindo ao jornal nacional, um dos poucos inter-ligantes da nossa convivência.

Minha família me abandonou.
Minha pátria sou eu.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A Magia Feminina


Arte de: Andy Warhol

Lorenzo Ganzo Galarça


Ou é verdade que as mulheres possuem poderes especiais, ou os homens são todos uns tarados. Desconheço meus limites na presença de uma moça.

As mulheres se apropriam dos instantes. Com seus olhares, conseguem desconstruir o mundo em segundos. Não, menos que isso. Em instantes, as mulheres transformam-se na única razão para a existência do homem, na única explicação para o caos, que é a vida. O reinado dura enquanto elas caminham. Depois, tudo se acaba.

As mulheres, quando vêem um homem interessante, pensam se ele daria um bom pai para os seus filhos, se ele seria atencioso no Amor e se teria uma boa condição financeira. As mulheres têm uma instrução para o convívio familiar. Elas são mais dedicadas ao Amor

Infelizmente, para o homem isso não existe. A paixão pelo instante é tão grande que o fascínio bloqueia, até mesmo, os estímulos sexuais. Enrolamos a língua, esquecemos a idade, dizemos adeus em línguas estrangeiras e até mesmo trocamos de time de futebol, se for conveniente.

O homem não pensa em absolutamente nada na presença de uma mulher encantadora. A paixão é tão intensa que ocupa o corpo todo. Não sobra espaço para questionamentos, juízos de valores ou quaisquer outras coisas relacionadas a atividade cerebral.

O poder criativo resume-se a cartas de Amor, jingles com o nome dela, no chuveiro e pequenas poesias piegas, nas orelhas dos cadernos. O homem é um artista no Amor.

Se para admitirmos que estamos apaixonados chegamos próximos a dor do parto, imaginem como deva ser para um homem pedir uma mulher em casamento. É o grau máximo de traição da espécie. Dentre os amigos, é praticamente admitir a homossexualidade.

O pedido de casamento de um homem não representa somente a vontade de compartilhar a sua vida com outra pessoa. Representa uma morte de quem se é. A mesma tinta que assina o certificado de união, rubrica o atestado de óbito. A morte nada mais é que um inicio ao avesso.

O homem casa-se, não por pensar no futuro, mas sim por querer o instante cada dia mais presente. O homem não pode pensar na sua mulher como sua esposa. Deve pensar nela como se não fossem dormir juntos na mesma cama, todas as noites.

O homem não suporta a certeza do casamento. Ela faz com que duvide da sua sexualidade. Ele precisa conquistar sua mulher todos os dias para provar, para si, que ainda é homem.


O homem se trai para não trair.

sábado, 29 de novembro de 2008

Hoje em dia, o sexo começa fora da cama.


Arte De: Henri Toulouse-Lautrec
Lorenzo Ganzo Galarça

Estava caminhando por uma de nossas ruas gaúchas, quando me deparei com um fenômeno único do reino animália. Um suposto casal namorando com tal voracidade que já não sabia quem era o macho e quem era a fêmea naquele louco entrevero.

Eles trocavam as "caricias" em plena Rua Da Praia, numa tarde de quinta-feira. Eu olhava para os lados para ver quais eram as reações das pessoas. Todos passavam reto. Imaginei que estivesse num daqueles programas ao vivo com pegadinhas.

Fiquei arrasado o resto do dia. Lembrava e relembrava aquele fato como se estivesse assistindo ao replay de um impedimento duvidoso. Nada e nada. A idéia simplesmente não se assentava na minha cabeça.

Por mais triste que seja, hoje em dia, nem mesmo o que eu não sabia que podia acontecer dentro de quatro paredes é ausente de privacidade. As pessoas de hoje conhecem pouco a solidão.

O sexo, por mais carnal que seja, é solitário. É o encontro de duas intimidades que se inclinam, é uma companhia para o ato de estar só. O sexo mostra nossos desejos possessivos e controladores ao mesmo tempo em que flagra nossa entrega e rendição.

Estar em contato com a solidão significa ser si – próprio. A nudez não possui máscaras. É impossível disfarçar-se. O Encontro não aceita encenações.

Na cama, não se procura o prazer do alheio. A natureza não pede o regozijo mútuo. O orgasmo é egoísta. Não é possível dividi-lo. O sexo é uma guerra entre amantes.

É vital que reaprendamos a como ficarmos sozinhos. Saberemos como honrar o convívio. Cada encontro será mágico, cada palavra fará mais sentido e cada cor terá mais brilho!

O sexo é a continuação dos nossos corpos.
In (finitos).

Biólogo Autista


Arte de: Edward Hopper

Lorenzo Ganzo Galarça


Não me incomodo mais com a maquiagem feminina. Não me irrito mais com bons modos e risadas forçadas. Te deixarei pagar a conta, não me importo mais.

Tenho passado por um processo de aceitação muito intenso. Antigamente, se visse um cara com aquelas camisas de gola da Lacoste servindo uma farta taça de vinho tinto a sua companheira ficaria perplexo. Gritaria comigo mesmo, declamaria discursos existenciais e diria coisas do tipo: “Por quê?! Por que esses dois idiotas usam essas máscaras e fogem, cada vez mais, na natureza do Homem?!”

Hoje em dia, dou-me conta que minha rebeldia não fazia sentido. Ela era como um protesto maloqueiro, sem grife e sem patrocínio. Era como um intelectual onipotente, que guarda suas inteligentíssimas observações para si próprio porque tem medo da critica.

Antigamente, me responsabilizaria por todos os casais, como um assistente social. Tudo em absoluto silêncio. Meu deliciamento se resumia aos olhares cheios de desdenho e a risadinhas indevidas durante a janta.

Não só entendi que a minha rebeldia, por ser odiosa, não tinha potência criativa e ativa como acho que tenho aprendido certas coisas com esses casais, antigamente tidos como, metidos a besta. Meu pior pesadelo se concretizou. Vi-me colocando a mão na frente da boca antes de tossir!


Contra minha vontade, aceitei que esses bons modos não deixam de ser um investimento no Amor. Uma espécie de cuidado com o outro, que também somos nós.


Para ser sincero... Quero mais é que se explodam todas essas palavras e idéias sobre as pessoas! Me vejo, as vezes, como um biólogo autista estudando a fauna deste louco mundo em que vivemos.

Acredito que eu, o menino que nasceu no mato, esteja conhecendo a cidade e as pessoas enfim. Estou, como todos, aprendendo a viver neste mundo. E o mais gostoso disso é que nunca saberemos se o certo é comer com a mão esquerda ou com a direita, levantar ou não levantar o dedinho.


A humanidade ainda está para definir o correto.

Ocupemos-nos com o bom!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sobre a Paixão


Arte de Egon Schiele
Lorenzo Ganzo Galarça

A paixão vem a nossa moradia e não bate à porta; derruba! Como se fosse do MST. Quando isso acontece o que resta é se entregar. Revelar a chave de baixo do capacho e acabar com todas as cópias. Ela já não é mais inquilina e é difícil a aceitação.
A paixão é antiga moradora que vem ver se está tudo bem e acaba ficando.

Nós que somos tão bem adestrados, acabamos guiados pela cegueira. A paixão não olha o apaixonado. Ela se apropria do acaso, assina cada carta de amor e adota os abraços órfãos. Ela é o maldito frio na barriga que gostamos de sentir e que ao mesmo tempo aquecemos com as mãos.
Ela é uma mulher de vestido preto e laço vermelho na cintura, que consegue tudo o que quer.

A paixão emburreçe.
O clichê é preciso em sua simplicidade. Diferente do Amor, a paixão não se disfarça. Ela inclusive, é a musica que distrai o sono e também as estrelas que não deixam a escuridão da solidão consumir nossos corpos.

A paixão é o buraco negro dos sentidos;
O Amor é o caminho de volta para a casa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Yo Soy Medico.



Lorenzo Ganzo Galarça

Sentado no banco de trás do carro, o garoto fala:
-Pai, tu sabe que hoje, lá no colégio, eu marquei dois gols. Sou um ótim...
- O pai atende ao celular-
- Sim, Alexandre. Fale, não, não estou ocupado. Pode falar. Manda!

Os filhos de médicos crescem vendo seus pais dando atenção, urgente, a outras pessoas. Sempre achei que os médicos possuem uma posição muito linda, mas ao mesmo tempo muito perigosa, frente a sociedade.

A de cuidar do outro.
Como não se sentir grandioso?
Como não ser arrogante?

É muito raro encontrarmos um médico que não faça diagnósticos no filho.
É muito raro encontrarmos um médico que não aborde as doenças no cenário familiar.
É muito raro encontrarmos um médico que receite um bom futebol e um banho de mangueira à uma criança.

O controle, como um vírus, fica solto no ar de casa.
Ele está em cada centímetro quadrado em que o filho tem a chance de se machucar para chamar a atenção. Essa é a forma que ele encontra de partilhar do seu amor (sim, em minúscula) . Ser medicado, cuidado e super-visionado, o que está longe de ser Amor, de verdade.

Se estabelece uma relação paciente-doutor. A criança arranja uma forma de controlar o carinho do pai. Ela sabe que "um médico nunca falha no seu dever", é claro que sabe.

Ela sabe da vergonha que existe por baixo da mascara de homem-aranha. Ela sabe do medo por debaixo do uniforme de super-homem.
A criança sabe que o pai não vai afrouxar a gravata e assistir ao futebol.
Ele estará, impecavelmente, limpo e pronto para socorrer.

Esses médicos se deixam ser controlados pelas crianças, porque enquanto estiverem de jaleco branco, eles terão a "CERTEZA" que nada pode dar errado. O amor do filho não vai ir embora e a esposa não vai negar-lhes um beijo.

Eles estarão seguros, dentro das suas pequenas bolhas de conhecimento.

Eles tem medo de esquecer, por uns instantes que são médicos, corre o risco de se machucarem e não saber como se curar.

Eles tem medo do acaso. Tem medo da vida.
Não conhecem o ímpeto da coragem de se entregar à lou-cura.

Injeção na alma, cura eterna.
O Amor é medicação que não se mede a dosagem.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quando não há tempo para desfrutar das horas



Às vezes, perdemos tanto tempo. Reservamos mesa, alugamos um bom terno, escolhemos perfumes, compramos flores e pedimos para que a moça borrife-lhes água, aspiramos o chão do carro, tiramos as bolinhas de algodão da nossa melhor camisa, damos a preferencial aos outros carros, abrimos a porta do carona, fingimos conversas interessantes, mentimos sobre alguns vícios e até bebemos do vinho que não gostamos. Tudo isso para agradarmos a moça em questão, quando realmente só queríamos guiá-la até cama mais próxima. Porque será que não vamos logo ao que interessa? Por que não declaramos, de uma vez, tudo o que sentimos.

Por que não facilitar as coisas?


Na verdade, gostamos dessas preparações. O homem gosta de fugir da rotina de dinossauro. Faz com que ele se sinta mais moderno, mais autônomo. Entretanto, o homem diz para si mesmo que não gosta dessas coisas, é justamente disso que finge se queixar no bar com os amigos, na noite seguinte. Reclamar dá popularidade.


O homem é realmente o sexo frágil. O homem cede; a mulher, não levanta o pézinho 35 do lugar. O homem toma banhos de 5 minutos; a mulher, leva horas cuidando da aparência. O homem está sempre competindo com os outros; a mulher ajuda as amigas a pintarem as unhas. O homem perde-se sempre; a mulher, pede informação.


O homem é um ser que ainda está muito enraizado na tradição. Ele acha que deve honrar a impecável linhagem da espécie. Mostrar que descende dos criadores do fogo, da matemática, e das guerras.

As mulheres só podem honrar o agora, por não terem tido uma passado glorioso. As mulheres não têm leis a serem quebradas. Elas são o novo. Constroem a sua história e não se baseiam em nada.


Acredito que pelo homem ser tão tradicionalista ele não saiba, ao certo, como lidar com o que nasce em si. Ele tem dificuldade em aceitar seus desejos e pensamentos. Como uma pessoa que pula de um prédio, o homem, sempre dá um passinho pra traz, quase que um susto, quando depara-se frente a frente com o seu desejo, no caso, a morte.


O homem deve aprender com as mulheres a como aproveitar melhor as horas, a como honrar a rotina.

O homem deve aprender a como celebrar o tempo que leva para uma unha secar.



Lorenzo Ganzo Galarça

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Estádio de Futebol


Foto: Internacional.com.br

Entrar em estádio de futebol.
Ah! Experiência única.
A cada jogo... Passar pelo túnel, sentir o cheiro de urina dos banheiros, sentir o fluxo de vento que corre por entre as arquibancadas, escutar distante, no rádio dos outros, os locutores da Gaúcha e gritar, gritar muito!
O instante em que se sai do túnel é mágico.
É um evento único. Assistir a 40 mil pessoas juntas no mesmo lugar. Tossindo, chorando, gritando, rindo, espirrando, beijando e discutindo.
O estádio é um parque de diversões para adultos.

As pessoas disfarçam os sorrisos dos abraços dizendo que gostam de ir ao estádio, apenas para assistirem ao jogo.
MENTIRA!
As pessoas vão ao estádio porque, sim, elas gostam do convívio. Porque, sim, elas precisam ser abraçadas.
As pessoas precisam, sim, confortarem-se na fala do outro.

A camisa da mesma cor é só um facilitador.
O time que joga a bola sempre para o mesmo lado é só um facilitador.
O mesmo grito de guerra é só um facilitador.

Não é fácil deixar-se levar pela emoção da comoção de tantos corações.
Vá ao estádio.
Me conte depois.


Lorenzo Ganzo Galarça

PS: O Beira-Rio é uma ótima pedida.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Brindemos

Semana passada completou mais um ano meu, vivo, na Terra.
É com esse ar de entusiasmo que dá-se.
Comemoração silenciosa, mas ao mesmo tempo escandalosa e explosiva.
Sim, brindemos a mais um ano.
Sim, brindemos a mais um dia.
E sim, brindemos a cada segundo de nossas vidas.
Gosto sim de expressar tempo vivido.
Me traz a proximidade com a morte.
Nunca deixaria-a de fora da lista de convidados.
É, inclusive, por manter-la tão de perto que não me preocupo tanto com ela em si.
Se a deixasse de fora da brincadeira, seria ela o menino, pobre, que chora de fome no meio fio da calçada olhando para dentro das janelas de uma casa, quentinha, em uma noite de natal.
A família inteira ficaria olhando para ele, deixando de desfrutar a ceia.
Nunca quero deixar de desfrutar a ceia. Nem meus convidados.
Podem vir sem convites.
A porta está encostada. Bata com carinho.

Lorenzo Ganzo Galarça

domingo, 5 de outubro de 2008

Mais uma tarde

Alícia pulava pelas pedras recém postas numa calçada em obras.
Em meio ao que para mim era uma tarde desperdiçada, arruinada e totalmente enlouquecedora a diabinha ainda se dava ao luxo de ficar feliz!
Procurei no passado algo que me explicasse, que me confortasse ou que simplesmente me anestesiasse do sentimento de incapacidade e ignorância frente a minha dor.
A resposta não estava nem no passado, nem no futuro e nem sequer em algum lugar muito complexo ou bem disfarçado, digno de investigação.
Estava bem do meu lado.
De mãos dadas comigo.
Eu estava cego para a cura.
Preferia a angustia.
Fazia mais sentido.


Lorenzo G.G.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Condição da Escolha.

A menina entra porta adentro como se fosse uma atriz de teatro.
Pergunta-me se prefiro a presilha de cabelo azul bebê, rendada; ou a presilha de cabelo azul bebê, rendada, e com pequenos laços cor-de-rosa.
Francamente, são iguais a olhos desatentos.
Seriam iguais, para mim, se não estivessem sobre as condições que estavam.
Para a minha irmã fazia toda a diferença do mundo; Para mim também.
Ela precisava que eu opinasse.
Precisava que eu lhe mostrasse a condição da escolha.
Não escutou a minha opinião para reprimir uma inclinação interna sobre a qual usar.
Pelo contrario, escolheu a qual eu não tinha escolhido.
O pronunciamento da minha inclinação seria como uma chave de um guarda-roupa.
Para que pudesse abri-lo e escolher qual inclinação lhe caberia melhor.
Agora sim.
Livre para escolher.
Desfilou com seu cabelo solto.


Lorenzo G.G.

sábado, 20 de setembro de 2008

Amar-durecendo

Um cenário aonde as coisas podem ser o que elas querem ser.
Entre pais e filhos escuta-se:
-Filhão, tira o avião ali do chão do corredor.
-Joãozinho, pega o teu dragão debaixo da mesa e arruma o castelo antes de dormir.
Que maravilha viver em um mundo aonde tu pode.
Nada é proibido.Nada é feio.
Um mundo aonde sofás são montanhas a serem escaladas.
Aonde chuveiro é cachoeira.
Um lugar aonde as coisas não são os nomes pelas quais são chamadas.
Uma criança fantasiada poderia apostar todo o seu porquinho afirmando ser o Homem-Aranha.Porque para a criança, naquele instante, ela é o Homem-Aranha.
E nada mais importa.
A criança apaixona-se pelo instante perdidamente.
Faz como os cachorros:
Corre atrás dos carros, mas não sabe o que vai fazer com eles.
Ela pensa, não planeja.
Ela sonha, não fantasia.
Ela é linda, não maquiada.
A criança, quando pula, tem certeza de que vai voar. Mas a gravidade a nega o direito de ser livre.
Mais uma vez o mundo conspira.
O relógio branco da cozinha nos arranca o sorriso desdentado para nos dar uma arcada permanente.
Ao longo dos anos, trocamos o leite quente, protetor e materno por café. Para enfrentarmos melhor a rotina, como dizem.
Mais uma vez o mundo conspira.
Usamos o pano dos bonecos para tecer ternos e gravatas.
E assim, crescendo.
Vamos nos conhecendo.
Para que um dia, quem sabe, estarmos maduros o suficiente para sabermos ser crianças.
E voltarmos a pular de pedra em pedra, mas agora
Sabendo, em que gaveta, ficam os Band-Aids.


Lorenzo G.G.

domingo, 14 de setembro de 2008

Os magia dos momentos

A essência da vida encontra-se nos momentos de intensa vivência. Encontra-se quando se pode desfrutar o que se tem.Os momentos de vivência não podem ser explicados.Quando tentamos, eles já não são mais o que foram. Nunca poderão mais ser. Agora, eles se tornaram outra coisa. Se tornaram uma justificativa.
Uma explicação de vida, de sentimentos.
São apenas frases. Sem boca para monstrarem-se.

Minha vida inteira procurei responder as perguntas que me indagavam.
Pois não gostava do desconhecido.
Do que não me era claro.
Hoje em dia, busco não justificar-me. Apenas sentir-me.Aproveitar cada segundo que meu coração bate. Independente da minha vontade.

Vejo-a descer as escadas. Batendo firme o pé no chão. Fazendo balançar o corrimão. Seus cabelos balançam de lá para cá trazendo consigo um sorriso lindo.

Estar atento à vida foi a melhor conquista que já tive. Sou grato ao mundo, por me deixar esfolar o joelho andando bicicleta. Por poder tirar a casquinha do machucado. Sou grato por me deixarem sentir. Por me deixarem amar os meus erros.

Que nunca erros foram. Cada erro foi acerto.
Um acerto diferente. Um acerto sem certeza.

Um acerto meio incerto.


Lorenzo G.G.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A vida vista de baixo

Cresci ao lado de minhas primas, junto de minha mãe, minha tia e avó.
Nas reuniões de família ficava com as mulheres.
Não assistia à grenais e muito menos escutava estórias sobre iatismo.
Comecei a falar palavrões tardiamente.
Achava feio, sem graça.
Lembro que sempre gostei das pessoas.
Do jeito como se comportavam, do jeito como diziam palavrões e do jeito como davam abraços. Era uma delícia de assistir.
Não era atacante; era goleiro.Observando o jogo dali de trás.
Sempre olhando, as vezes mais as joaninhas do que a própria bola.
Sério...
-O Lorenzo tá bem hoje?
-Sim, só está um pouco quietinho.
Cansava-me na minha própria loucura de pensamentos. Com direito a crises existências, tais como: De onde vim? Porque estou aqui? Quem sou Eu?
Entretia-me com meus brinquedos e com meus diálogos.
Com a minha rotina inventada.
Não precisava tornar aquilo público.

Lembro-me da não explicação dos meus atos.
Do sentido que a vida tinha.
Justamente por não ter nenhum.

Hoje, fui a uma reunião de família.
Nem com os homens.
Nem com as mulheres.
Hoje, fiquei com as crianças.


Lorenzo G.G.

domingo, 13 de julho de 2008

Zoo-Lógico

Lutamos para a sobrevivência.Como os animais que somos batalhamos nossa comida, nossa casa e nossa saúde.É vital termos lucidez para saber quem somos.E sim! Somos animais.
Bichos presos dentro do nosso zoológico particular, cujos curiosos visitantes são espelhos.
Aprisionamos
-nos dentro de nosso conforto e olhamos, cegos, para isso e então dizemos:"Que bonitinho, o bichinho".
A verdade é que damos as costas a nossa liberdade de existir e a trocamos por uma vida recheada grades e comidas em potes.Cortamos as próprias pernas para que então amputados de nossa potencia esperamos que alguém enfim nos carregue no colo.Porém, alguns de nós.Os que tem coragem para assumir a sua potencia e seus limites fogem do zoológico e então tomam o seu respectivo lugar na natureza.


Lorenzo G.G.

sábado, 28 de junho de 2008

O táxista e o mundo

Miro é motorista de táxi.Há 24 anos, todos os dias, ele carrega a vida das pessoas para cima e para baixo, pelas ruas da capital gaúcha.Miro queria mesmo era ser Psicólogo.Ter um escritório bacana e um daqueles sofás em que o paciente deita e conta da sua vida.O taxista, de família pobre e pai de 5 filhos, nunca teve muitas chances de crescer na vida.O mundo era muito grande para Miro.Ela era somente mais um bebê solto no mundo, sem dentes para comer e proteger-se.Mas como a vida nem sempre é como se espera o destino de Miro foi o táxi mesmo.Com o tempo, o motorista começou até a gostar de táxi.Miro entendeu que ser taxista não era tão ruim assim como achava que fosse.Afinal, ele conversava com muita gente. Médicos,psiquiatras,engenheiros,arquitectos,estudantes,bêbados e muitos outros mais. Todos eram levados pelo seu táxi.Nunca foi psicólogo mas ajudava muita gente.As vezes, muito mais vale a vontade do que um diploma.Esse era o propósito da vida de seu Miro.Ele vivia para a conversa.Ignorante, não conhecia técnicas avançadas de conversa e tão pouco usava uma linguagem rebuscada, porém tinha uma coisa que poucas pessoas tem.Seu Miro enxergava a simplicidade da existência.Tinha coragem de aceitar a vida como ela é e então comemora-la.O taxista tinha a lucidez do seu desejo.E seu desejo era não de ter gente no seu táxi para para ganhar dinheiro e tomar umas com os amigos.Era o de ter gente no seu táxi. e somente isso.Porque Seu Miro precisava daquilo.Seu miro não ajudava as pessoas quando as levava para seus destinos e sim ajudava a si mesmo.Ele fazia do seu táxi o seu consultório de auto-análise.E ele gostava daquilo...e como gostava.


Lorenzo G.G.

domingo, 22 de junho de 2008

Ausência

Quando as nuvens tapam o sol com suas mãos de algodão.
O tempo pára
E então ele volta e respira
O que existe nesse intervalo?

É o que existe entre os versos
O que existe é um meio tom
O espaço em branco pintado de tudo e de nada.
É a respiração
A ausência
É o estar vivo

A ausência protege, informa o agora
Sem a ausência da vida, não ficaríamos presentes.
Sem a ausência estaríamos presos na inércia do tempo

E então presos permaneceriamos
Ausentes de nossos sentidos
Desconhecendo...
As mutações da vida

Lorenzo G.G.

domingo, 15 de junho de 2008

Anatomia da Capital

Não importa o que digam os mapas.
Para mim a Borges só começa depois de passar a ponte sobre o lago.
Só começa depois que a gente é engolido pelos prédios gigantes.
Pela boca do centro.
A boca de Porto Alegre.
Que engole a luz e as pessoas.
E as leva para as sombras.
Indo mais ao fundo, pela garganta, encontramos o viaduto.
Já submersos, dentro do estômago, encontramos o verdadeiro Centrão.
Mares e mares de gente e de muitas outros bichos mais.
O centrão, junto com os bichos, respira.
Mas e o Coração?
Aonde está o coração de porto alegre?
Ah! Esse sim!
Esse é o engolido.
Porto Alegre não tem um coração só não.
Tem mais ou menos 1.5 milhões de corações por ai.
Os que já foram, os que estão sendo e os que virão a ser.
Todos pulsando.
Juntos.
Dando ritmo
Às nossas vidas.


Lorenzo G.G.

domingo, 8 de junho de 2008

Auto-Conhecimento

Auto-conhecimento é um termo complicado...
Dá a idéia de que sabemos como funcionamos.
Muitos de nós dizem que até entendem como funcionam!
Nossa!
É muito gabarito para uma pessoa só!

Auto conhecimento dá a idéia de superioridade do raciocínio lógico em cima dos instintos.
Vamos combinar que é instrução difícil essa.
É como se o cérebro dissesse meio que assim para a alma:
-Fica tranquila que vai dar tudo certo.Eu... já conheço essas bocas todas.
Dentro da nossa melhor e sustentável tese sobre nós mesmos, iludimos-nos.
Achamos que nos conhecemos e que nos entendemos.Mas é que na verdade não é bem assim não.
O pior é que quando nos conhecemos tão bem, de mestrado e doutorado, não abrimos espaço para as novas inaugurações de sentimentos.
Ou seja, ficamos ligados ao que achamos que somos e que fomos ao invés de aproveitar e desfrutar o nosso novo "eu". que nasce a todo instante.

O que talvez dê pra fazer é um diálogo
Costumo dizer para as pessoas que não tenho um auto-conhecimento de mim mesmo e sim um auto-conversamento.
Um relacionamento
Um namoro.
Através da conversa, da sedução e da investigação conseguiremos, quem sabe, trilhar o caminho da felicidade e logo, a busca de nós mesmos.


Lorenzo G.G.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Banho

"Lára-ri-la--"
"Lára-ri-la--"

É assim no banho.
Eu nunca tinha parado para pensar sobre.
Hoje foi diferente.
O banho é uma das únicas horas do dia, da semana, do mês, do ano e até mesmo da vida em que algumas pessoas tem a oportunidade de se fazerem carinho.
Algumas até usam-se de esponjas para fugir do contato.
É tão bom aprender a se fazer carinho.
A gente só aprende a fazer um carinho gostoso para o outro depois de conhecermo-nos muito bem.
Bom, voltando a cantoria.
Será mesmo que o fato de que, no banho, cantamos e conversamos "sozinhos" não tem nada a ver com o contado consigo mesmo?
É claro que tem!
No banho, estamos nus.
Sem fantasias, máscaras ou disfarces.
No banho estamos com tudo o que é nosso.
Não há para onde fugir de si.
Não se pode fugir no real.
Mas o real doí.
E mesmo assim alguns de nós, seguem discursando na sua maior intimidade.


Lorenzo G.G.

domingo, 18 de maio de 2008

Tudo passa.

-Ai meu Deus que dor na minha língua!
Entre aftas e inflamações, uma semana inteira se arrasta dentro da minha boca.
-Ai meu Deus como arde a minha língua!
Assim todos dias.
Mesmo depois de longos diálogos.
O desespero e a loucura se mostram com uma capacidade de sedução incontestável.
A culpa também!
Ai a culpa... Naquele seu vestidinho preto.Minha nossa!
Certamente, se eu tivesse tomado aquele remedinho para dor de barriga, a minha língua estaria melhor!
Lógico!
Faz tanto sentido.
-Uau! Daqui de cima, a minha língua até parece pouca coisa.

Mas...

Não, ela NÃO é pouca coisa.
E SIM, está doendo prá cacete!
Visto isto, me acalmo dentro desta longa e dolorosa semana.
Até que certo dia, escutando uma de minhas musicas preferidas.
"Tudo passa. Tudo passará!"
Renato, juntamente com Metal contra as nuvens, me ajudam a encontrar a minha cura.
Ela estava tão perto.
Aqui do lado.
Só faltava querer.

Querer estar bem.


Lorenzo G.G.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Celebrações

Rafael:-Não gosto de comemorar aniversários.
Lorenzo:-Por que que tu não gosta?
Rafael:-Porque seria a mesma coisa que comemorar estar mais perto do dia da nossa morte.
Lorenzo:-Tudo bem, mas eu acho que quanto mais comemorações nós conseguirmos realizar ao longo de uma vida, melhor!
Essas datas comemorativas ( aniversários, dia do médico, dia do cachorro, dia do amigo) estão muito ligadas a incapacidade das pessoas em comemorar todos os dias como únicos e celebrar tudo o que lhes acontece.
Como dizia Nietzsche:"Amor fati", ou seja, amor aos fatos da vida.
Essas datas comemorativas são combinações que a sociedade cria para justificar o ato de celebrar a vida!
Este é o nosso mundo.
Então
Vamos comemora-lo!




Lorenzo G.G.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Letras

Já pararam para pensar em como as letras são inteligentes. O “g” não se queixa de ficar ao lado do “o”.

Agora, se você escrever o “q” sem o “u” ele fica incomodado.

Quando elas se sentem desconfortáveis, vão dando sinais de que gostariam de ser reescritas. Já imaginaram se as letras não conversassem com a gente?

Que bagunça que seria... Umas vogais pra cá, outras consoantes para lá... Tudo bagunçado... Não ia dar pra entender nada!

Quando lemos algo bom e bonito as letras chegam a brilhar de uma outra maneira. Enquanto escrevo, algumas letrinhas soltam um leve sorriso, outras enchem a boca de felicidade.

Tão lindo ver suas carinhas jogadas e seus corpinhos nessa folha branca.

-Incríveis...


Lorenzo G.G.


quinta-feira, 17 de abril de 2008

Um pouco de nós

Escrevo de um comentário que virou prosa:
Depois de ler o poema de Quintana sobre a natureza (Citações).
Percebi como é raro esse nosso encontro com a natureza, com os nossos instintos.
O tempo todo, nos tomamos de um intenso contado com a paisagem, porque ela também é nós.
A partir do momento em que digo que nós também somos paisagem significa que o que enxergamos, tudo o que vemos, é um reflexo de quem somos.

Vinicius dizia em seu poema "O operário em construção".
Que em cada tijolo existia um pouco do operário.

Isso aparece no nosso dia-a-dia como quando:
Ao pagarmos os nossos impostos estamos contribuindo para o crescimento da cidade,logo, em cada praça, em cada rua e em cada esquina está um pouquinho de nós.


Lorenzo G.G.

sábado, 5 de abril de 2008

Glorioso Cotidiano

Hoje navegando pelas ruas de minha pátria, deparo-me com muitos pensamentos. Observando cada pessoa na rua e estudando suas singularidades( engraçado falar de singularidade no plural). Singularidade não existe só uma dentro de nós e sim várias, milhões delas. É isso que nos torna humanos.
As pessoas nas ruas me pareciam todas, sem exceções lindas, maravilhosas!
Percebi que havia deixado de olhar suas belezas externas e sim estava a enxergar a essência de cada uma de suas singularidades.

Lorenzo G.G

Relações de "amor"

Bom...

Eu queria falar um pouco sobre o texto abaixo (Raro Diálogo).

O que foi mostrado, foi uma discussão muito comum entre duas pessoas.Os dois personagens discutiam um com o outro sobre uma relação de "amor" extremamente possessiva.

Na nossa atual sociedade a grande maioria das relações se inclina na tentativa consciente\inconsciente de controlar as pessoas. Em função disso, a palavra "amor" foi escrita em letra minúscula e com aspas.

Quando se está amando verdadeiramente, as tentativas de controle são deixadas de lado e o amante valoriza a autonomia e busca sua felicidade. Essa realização é o que possibilita aos amantes serem realmente livres.Só assim podemos nos referir ao Amor com letra maiúscula e sem aspas.

Quando nos encontramos desconectados de nós mesmos e tentamos controlar a vida dos outros é aconselhável despertar!

Um simples, porém extraordinário ato de CARINHO...

Por que fiz questão de que o Carinho fosse dito pelo personagem"Não importa"?

Porque quando existe Amor,não importa quem é o sujeito apaziguador.

Não existe competição e sim a consciência de ambos de que aquele bate-boca não vai dar em nada.


Lorenzo G.G

Um Raro diálogo

João:
-Eu acho que você não deveria ficar se metendo no meu jeito de falar , Mônica!

Mônica:
- E eu acho que você deveria pensar um pouco mais nos sentimentos dos outros antes de dizer qualquer bobagem!

João:
-Você está sempre tentando me controlar e me dizer como viver!

Mônica:
-Agora, dizendo isso, tu também está se metendo no meu jeito de ser, pois você quer que eu seja e pense de outra forma!

[...]

Não interessa:
-Vamos ao cinema?


Lorenzo G.G