terça-feira, 22 de junho de 2010

Tempo para a maquiagem


Arte de: Toulouse Lautrec

Lorenzo Ganzo Galarça

Confiro as estatísticas dos beijos e o mercado das carícias. Carrego a sina do excesso de observação como se fosse uma empilhadeira emocional. Meu amor com Carolina apresentou sinais de crescimento acentuado no último final de semana.

Ela confessou que estava sentindo falta de sair com as amigas. Trocar palavras sem propósito, embriagar-se nos cabelos, vestir-se com o próprio ego de uma mulher solteira, aquela que rejeita um homem por egoísmo do corpo.

Fiquei simplesmente estarrecido. Minha língua voltou ao maternal para montar quebra-cabeças. As palavras fizeram fila na catraca da consciência.

Achei aquilo um absurdo. Como a minha namorada poderia querer sair sozinha com as amigas e me abandonar na fidelidade das panelas e das louças? No mínimo, teria dado a notícia em prestações por respeito ao diálogo.

Senti-me como um menino inexperiente. Como se a menina, dona da minha infância, houvesse fugido com o meu melhor amigo. Sempre acreditei que poderia proporcionar o narcisismo de minha namorada utilizando apenas as próprias mãos.

Fazemos de tudo para mostrar ao outro a sua beleza, mas se não houver espaço, não existe comprovação. Toda palavra exige declamação para ser verdadeira.

Minha namorada, com a sua paciência de rio curvo, mostrou-me aos poucos que eu estava sendo presunçoso. Disse-me que arrogante é aquele que se culpa por excesso de cuidados, que muitas bandagens aumentam o volume da ferida.

Depois da tempestade, denunciei meu medo pela curvatura dos olhos. Como um pedaço de chumbo boiando na água, ela percebeu o movimento.

-Qual é a tristeza?
-O inverno começou, nossos lábios estão rachando. Logo a neve cobrirá o corpo por inteiro.

Na paixão não existe conta-gotas para os esforços. É regra: Os amigos precisam alugar a companhia, separar as roupas emprestadas, devolver os segredos. O relacionamento que se inicia precisa de total dedicação. Atenção semelhante ao parto.

A reconciliação das amizades representa uma transformação no relacionamento. É como voltar para a casa em que nunca moramos. Trabalhar a terra na volta da chuva. Amigo é uma propriedade privada de uso público.

Entendi o pedido como uma desistência do empenho amoroso , (como se o amor fosse uma queda-de-braço). Subtraí as palavras para não contrariar as raízes da ansiedade. Minha fome atropelando os talheres.

Somente mais tarde entendi que no amor não se transborda por esgotamento; transborda-se para ser preenchido de desejo, saudade e fome.

Carolina não me excluíu de seus instantes, muito antes pelo contrário. Buscar espaço significa iluminar a proximidade.

Abandono teu corpo para contrastar minhas curvas no cenário inventado pelos nossos sonhos.

domingo, 16 de maio de 2010

Na proteção dos teus lençóis


Arte de: Marc Chagall
Lorenzo Ganzo Galarça


Certas vezes, nas vastas planícies da nostalgia, recorria às almofadas dos avós para construir fortalezas em cima da cama do casal. Demonstrava a frieza calculista de um jovem arquiteto. Planejava a construção minuciosamente, com direito a um fosso repleto de crocodilos para a proteção.

Desde pequeno encontro na cama o lugar mais seguro para meu corpo. Uma espécie de útero de aluguel.

Hoje estava triste, com os cílios varrendo o assoalho do quarto. Apagando fósforos antes de acender a chama. Acordei distante do dia, distante do sono, distante da minha namorada.

Disse a ela que estava chateado com o fato do final de semana estar acabando e de que iríamos nos separar. Nós dois abandonaríamos a mágica intersecção do encontro e voltaríamos para os nossos círculos de atuação.

Acredito que o encontro seja o istmo que une diferentes continentes. Minha namorada já atravessou o Atlântico para buscar o meu sorriso. No encontro, ultrapassamos a superfície da vida para emergir no imensúravel e retomar o fôlego.

Ela me disse que eu deveria relaxar, que o final de semana também pode ser início. Disse que eu me ausento do corpo por temer que a pele se renove.

Aceitei a crítica com a natureza de uma árvore e pedi desculpas por desvalorizar a soma dos segundos. Minha pressa me faz atropelar a juventude para saborear a velhice. Vivo por antecipação e não capturo o pulo dos peixes.

Ela levantou o cobertor da cama e chamou-me para debaixo dele.

- Vem pra cá, construiremos uma cabana para proteger a nossa eternidade da ameaça do tempo.

Minha namorada não só me reconforta no presente
como justifica os sonhos do meu passado.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Celular

Lorenzo Ganzo Galarça



Minha namorada nunca perde uma ligação no celular. Toda vez que lhe telefono, tenho a certeza de escutarei sua voz. Funciona como um plantão amoroso. Ela já fica com o dedo sobre o botão verde assim que escuta a interferência no rádio chegar.

Eu, pelo contrário, nunca aprendi a desfrutar da mobilidade dos aparelhos. Deixo meu celular no balcão do quarto, como se estivesse recarregando a bateria, e saio andando avoado pela casa.

Ocupo meus bolsos apenas com guardanapos e lágrimas.

Meu toque é do tipo crescente, logo somente escuto o celular depois que o outro já criou raízes na linha. Chego atrasado, perco o trajeto.

Falar comigo tornou-se uma conquista. Dificulto os caminhos, uso sósias e esconderijos. Glorifico a conversação.

Minha namorada reclama, diz que eu preciso estar mais disponível. Eu digo ela que a dificuldade intesifica o amor, e ela torce o nariz.

Esperar na linha é a confirmação do desejo.

Digo a ela que quase nunca atendo o telefone, verdade. Mas que também sou sempre o último a dizer adeus.

Pontualidade no amor é estar sempre atrasado para a despedida.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A metade que não foi



Lorenzo Ganzo Galarça


[ler ao som de "Metade"
de Adriana Calcanhoto]


No amor, o que menos importa para mim é a correspondência, a confirmação. Não preciso que me retribuas um "eu também" quando falo "eu te amo". Preciso apenas dos teus ouvidos.

O silêncio me gratifica mais do que a homenagem.

Devemos estar sempre prontos para receber o amor do outro. Não importando o horário ou a situação. O amor não espera o trânsito.

Havia combinado com a minha namorada uma conversa pelo telefone durante a noite. Um abraço de costas. Buscamos enganar a saudade, mas sempre acabamos acordando os gritos.

Algumas eventualidades aconteceram e acabei mudando meus planos. Na pressa ao sair de casa, fui ligar para e ela e percebi que o celular estava sem bateria.

Resolvi mandar um e-mail explicando o ocorrido.

Entenda, não existe nada mais desrespeitoso do que informar alguma coisa por e-mail. É como se a materialidade do discurso diluísse a culpa da escolha. Muito antes um pombo correio ou sinal de fumaça. As cartas ao menos são românticas.

Não mandei e-mail porque era mais prático, mandei porque fiquei envergonhado de dizer para minha namorada que não conversaria com ela por telefone.

O celular ficar sem bateria foi a desculpa que o destino me ofertou. Funciona como se fosse um ferrolho amoroso: "Ó, tu não pode ficar brava. A culpa foi do telefone."

Toda vez que tentamos desapropriar as escolhas, perdemos a capacidade de articulação da vida. Desculpar-se é como subir em uma cadeira-de-rodas.

Mais tarde, ela me respondeu o e-mail. Teve compaixão. Poderia ter guardado as palavras, datilografado a mensagem, emoldurado e pendurado na parede da sala. Minha namorada preferiu não exilar-me na solidão. Juntou-se a mim na caixa de rascunhos e me ofertou a mão.

Dizia na mensagem que seu dia havia sido terrível, que estava triste e que o que mais desejava era ouvir a minha voz. Desabafar nos ouvidos de quem mais gosta. Disse que ficou chateada mais com a minha forma do que com o conteúdo.

-"Puxa vida", disse assim.

Senti meus cabelos fazendo companhia a sola dos pés. É como se eu mesmo fosse retirando os alicerces de meu corpo. Desconstruindo minha imagem, como um artesão que deforma o barro durante o processo criativo.

Meu desejo era de descascar a pele para poder ventilar a carne. Reunir algumas ferramentas e lapidar meu caráter.

De que adianta a entrega quando não somos recebidos?

Minha namorada abandonou sua casa para viver em meu corpo. Permaneceu parada na porta aguardando a entrada que não veio. Flutuante e sem pátria.

As vezes acho que deveria afastar-me do convívio. Retirar-me de cena por um tempo. Rescrever o roteiro. Pensar melhor nas frases.

Voltar apenas quando tiver certeza de que estou de portas abertas.

O amor não vive de frestas na janela.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Apetrechos


Arte de: Henri Matisse

Lorenzo Ganzo Galarça


Ganhei um relógio de aniversário.

Não é que não tenha apreciado o presente, ou mesmo sua aparência. É discreto. Pulseira preta de couro maleável, números grandes e traços cortados à espeto corrido. Compensa ao fazer cócegas de avô na ponta do braço.

O problema é que nunca havia usado relógio. Via nele um apetrecho sem utilidade. Conferir o tempo era o mesmo que desperdiçá-lo.

Quando o coloquei no pulso, o relógio cresceu como se experimentasse fermento em minhas idéias. De repente cresceu mais que minha cabeça, mais que minhas amêndoas arregaladas. Havia tomado o mundo inteiro.

Fui olhar-me no espelho para ver se o relógio combinava comigo. Já era de se esperar, mas era eu que combinava com ele. Tornei-me imediatamente um acessório desproporcional. Algo bréga. Meu corpo estava fora de moda.

Carrego, agora, um certo desespero comportado em meu pulso. Aquele nervosismo de peixe de aquário. Uma paranóia travestida de atenção.

Olho constantemente para o relógio. Suplico à imaginação que o diminua, molde-o conforme minhas curvas. Entretanto, parece que já não sou eu mais que o controlo. Que detenho o engenhoso segredo de seus furos. O rebuscado laçado de um peão urbano.

Resta esperar que o relógio se canse de mim. Desista do exibicionismo e coloque um agasalho. Até que eu não sirva mais para passar as suas horas.

Acho que não nasci para me acostumar.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Perdendo Tempo


Arte de : Jean Basquiat

Lorenzo Ganzo Galarça


Fomos nos acomodando. Reclinado a poltrona bege e bebendo as nossas cervejas. Enquanto as mulheres rompiam paradigmas, amassavam estereótipos e se distanciavam da cozinha, os homens se acostumavam com a indiferença.

Hoje em dia, somente as mulheres são misteriosas. Guardam um segredo debaixo de cada esmalte. Todo cabelo feminino é uma biblioteca.

Os homens foram sendo decorados. Vêm com um manual de funcionamento estampado na nuca. Transformamo-nos em rebanho para sermos guiados por alguma vaqueira solidária.

Os homens não tem espaço para a inovação. É como se as "Regras do bom macho" ficassem voando por sobre as nossas cabeças.

Regra número um: Jamais elogie. Quem elogia é veado.
Regra número dois: Nunca seja atencioso. Atenção é coisa de cabeleireiro.
Regra número três: Jamais demonstre prazer na cama. Macho mesmo goza e fica quieto.

Existe uma grande confusão de conceitos. Um quarto bagunçado.

O homem relaciona virilidade com falta de respeito. Lembra a imagem imponente do pai, brigando com sua esposa, na escuridão do quarto e nos holofotes da sala. Toda sala é um palco à Augusto Boal.

Os homens acham que medo e respeito são irmãos separados na maternidade. Não querem relacionamento, querem paternalismo. O troglodita é aquele que antecipa a paternidade com uma mulher.

No sexo, apenas a mulher deve gemer. O homem fica excitado não com o lábio mordido da companheira, mas sim com o seu próprio silêncio. Sua seriedade. Seu objetivo cumprido. O gemido é a casa assombrada do desejo.

Homem na cama não busca prazer, busca medo. Deseja uma mulher submissa que o trate no dia-a-dia com a mesma entrega do quarto. Não faz idéia de que o lençól é o diário do relacionamento.

Deseja chegar a casa e receber um beijo com cheiro de roupa lavada, mas a única coisa que traz da rua é a velha camisa suada cheirando a palavrão. Quantos homens voltam para casa de roupa nova? Quantos homens lembram-se de comprar lenha para a lareira?

O homem quer possuir a mulher. Empilhá-la na sua estante, junto aos carrinhos da infância. Quer mais um troféu para mostrar aos colegas do trabalho.

Parece que perdemos em algum lugar do mundo o nosso interesse. A nossa sensualidade. Ainda estou tentando retirar os meus irmãos da casa desabada, erguer algumas palafitas sobre o rio da vida e recomeçar o aprendizado.

O homem deseja apenas receber, mas ainda não aprendeu a se entregar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Imaginação Míope


Arte de: Paul Klee

Galarça Lorenzo Ganzo


Sempre achei que tivesse uma ótima visão. Quando criança, a chamava de olhar de águia, aquela que enxerga a presa a quilômetros de distância e já calcula o ataque. Era o estrategista da observação. Revezava o silêncio com o meu bodoque.

Para o meu triste desespero, descobri, esses dias, que minha visão estava prejudicada. Não estou falando de um problema oftalmológico, mas da funcionalidade da visão. Um popular caso de imaginação míope.

Após fazer a barba, fui buscar a toalha de rosto mais próxima do balcão do banheiro. Não havia nenhuma. Procurei no armário e vi que todas tinham ido tomar banho. A única toalha que restara era uma de chão. Marginalizada pela hierarquia de poderes da limpeza, ficou excluída dos meus planos de higienie.

Tanto a toalha de rosto como a toalha de chão eram feitas do mesmo material, desfrutavam da mesma marca de amaciante, eram irmãs de comprimento e largura. Entretanto, o meu mundo decorado foi mais forte do que a sensibilidade.

Deixei a pele gripada porque não tive coragem para fugir dos limites. Todo nome é um limite. São as arestas das nossas vidas. Tenho medo de pessoas com o sobrenome muito grande, parece que mastigam as palavras quando se apresentam.

Nós nos transformamos em escravos dos nossos títulos. Investimos demais na nossa apresentação e não guardamos fôlego para o resto. Somos um restaurante fino que serve misto quente.

A observação é o contrário disso. É quando temos a capacidade de escolher um pássaro como nosso guardador de segredos, mesmo sabendo que ele jamais retornará. É quando enxergamos um barco e desconstruímos o horizonte, a fim de levá-lo aonde nunca esteve.

Observação é entender que a manhã acorda na boca dos peixes. Que o ventilador serve para nos servir as fatias.

Abandona teu nome. Troque o arranjo das letras.
Te conhecerás tanto que jamais serás esquecido.